01.03.26 – Choque-Rei
Campeonato Paulista, 01.03.2026, Arena Barueri
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Semifinal do Paulista. Outro Choque-Rei. De novo, como quase sempre nos últimos sete jogos, com exceção de uma mísera partida em casa onde fomos obliterados por Ramon Abate Abel, mando do Palmeiras. De novo sem casa, sem gramado, sem torcida, sem árbitro.
O jogo já seria difícil de qualquer modo, com tudo favorável ao Palmeiras, que além do mais vem jogando bem, sabendo explorar erros de seus adversários e controlando os jogos, como fez no Choque-Rei anterior, como fez no Dérbi, como fez contra o Fluminense no Brasileiro. Não bastasse, o técnico Hernán Crespo prefere inventar, sonhar com o extraordinário, a lembrança idílica do único título paulista desde 2005, a final da pandemia com vitória de 2x0 sobre o Palmeiras, gols de Luan e Luciano, escalando o mesmo Luan, quem sabe ele não amedrontasse Abel Ferreira?, alguém mete medo no prepotente e arrogante Abel Ferreira?, embora não fosse o mesmo Luan, este é mais lento, mais gordo e mais grosso, tudo porque Danielzinho não poderia começar, se é assim, começasse então com três zagueiros, Tolói enfim tinha jogado bem contra o Coritiba, ou com Pablo Maia no meio, ou sem Lucas e mais um meia, talvez Cauly. Alguns poucos sonhos se realizam, de fato, e sonhar é inerente à alma humana, mas o depósito dos sonhos irrealizados de cada única pessoa que já passou pela Terra é maior que milhares de universos, não se vive de sonhos nem se arrisca certas coisas em certos momentos.
O plano foi lastimável, tínhamos três jogadores que pouco ajudavam, o trio de atacantes Lucas, Luciano e Calleri, já que não recebiam bolas para atacar e não voltavam para defender, o carrossel no qual o meio-campo são-paulino tinha se tornado nas últimas ótimas partidas quebrou, o time ficou estático, Luan, como se sabe, não ajudaria na armação e também não ajudava na defesa, perdido, enquanto o Palmeiras pressionava para nos causar um erro que nos seria fatal, foi, aos 8’ erramos na defesa, Vitor Roque dentro da área tenta passar rasteiro, Arboleda não corta, Lucas Ramon passava da bola e apenas a resvala de calcanhar, a bola sobra com Vitor Roque, a defesa desarrumou-se toda, Maurício recebe livre quase na linha da pequena área e decreta o vaticínio de mais uma derrota.
A partir daí foi ver o “saber sofrer” do Palmeiras, esse chavão ridículo como se se defender não fizesse parte do jogo e como se fosse impossível impedir que o outro time atacasse. O Verde pressionava a saída do Tricolor, que não conseguia sair. Retomada a bola, o Palmeiras não criava novas oportunidades, e o jogo foi sendo cozido e cosido assim, quem ganhava não jogava e não deixava jogar, quem perdia não jogava e deixava jogar.
Lá pelos 30’ o São Paulo parece encontrar algum espaço para tocar a bola, vem o primeiro chute a gol, ruim. Aos 32’, com Lucas Ramon, e quando pensávamos que finalmente conseguiríamos alguma chance de gol, a cobra-verde já estava lá, emboscada, camuflada, pronta para o bote derradeiro, e, aos 42’, Piquerez aparece livre pela esquerda dentro da área em um contra-ataque fulminante, a jogada perfeita para o jogo acabar, mas erra miseravelmente o chute que foi muito aberto para ser cruzado e saiu depois da lateral esquerda de Rafael.
Com o pouco que tínhamos, transformamos o golpe fatal perdido em esperança para a segunda etapa, que começou com o time melhor e tentando pressionar o Palmeiras.
Aos 5’ do segundo tempo, mais um lance bizarro da arbitragem em um Choque-Rei, invariavelmente a favor do Palmeiras, esses jogos têm se tornado um anedotário de como gambelar um mesmo time toda vez, Lucas, marcado por Gustavo Goméz, na lateral direita da área palestrina, cruza e a bola explode no braço aberto do zagueiro palmeirense, o pênalti que hoje se marca em todos os jogos, em todos os cantos, a mesma lei vale para todos, todos são iguais perante a lei, embora uns sejam mais iguais que outro, veja bem, a lei é essa, até seria pênalti, mas aqui, olha só, veja bem, e assim foi, não teve apito, não teve VAR, só mais uma nova anedota em nosso calvário.
Ao São Paulo restava, de novo, tentar ganhar sem torcida, sem grama e sem uma arbitragem que nos momentos cruciais não lhe tungasse, pressionando meio sem risco a sólida defesa palmeirense. Aos 12’, após uma falta discutível cobrada rapidamente, defesa tricolor tentando achar suas posições, a bola vem cruzada alta para Flaco López que faz o segundo.
A certeza da tunga veio aos 20’ quando em um lance em que quase ninguém marcaria pênalti, Daiane Muniz apitou com a convicção que só o arrependimento traz, fingindo para si resolver a polêmica com um arremedo de justiça, obviamente um pênalti dado quando se perde de 1x0 é absolutamente diferente de quando se perde de 2x0, a alquimia mais infrutífera do que transformar chumbo em ouro é imaginar que dois erros farão um acerto.
Calleri, o ódio no olhar e na chuteira, cobrou com força, indefensável mesmo que tenha sido no meio, o 1x2 nos trazia para o jogo só para que mantivéssemos a esperança do que nunca aconteceria, o São Paulo teve posse de bola, cruzou muitas vezes para a área, mas a verdade é que nunca chegou a realmente sentir o cheiro do empate.
A derrota é frustrante por ser mais do mesmo com o requinte da crueldade da escalação de Luan como titular. Daqui a três semanas, novo Choque-Rei, em casa, pelo Brasileiro, e espero que se aprenda hoje para que lá seja diferente, com a liderança do campeonato.
Para nós, sem torcida, sem grama, sem arbitragem que nos prejudique, sair de casa já é se aventurar.
