03.05.26 – São Paulo 2 x 2 Bahia

Brasileirão, 03.05.2026, Estádio Cícero de Souza Marques, Bragança Paulista

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Seguindo sua sina nômade longe de casa, o São Paulo, na 14ª rodada, manda uma partida no quarto estádio diferente neste Brasileirão. Além do cada vez mais raro Morumbi, já foi mandante no Canindé, no Brinco de Ouro e agora no acanhado Cícero de Souza Marques, em Bragança Paulista. Impossível sustentar uma boa campanha assim.

Começa o jogo e o Bahia rapidamente mostra que é melhor, começa a aparecer a diferença física entre os times com competições sul-americanas que jogam toda quarta e domingo, sem descanso, e aqueles que só jogam aos fins de semana, o prêmio de consolação bahiano por terem precocemente se despedido da Libertadores, ainda nas preliminares.

A verdade é que a torcida tricolor cristalizou toda sua frustração de uma década e meia de times ruins, campanhas desastrosas e algumas derrotas vergonhosas, na figura do técnico que substitui o único que nos falou a verdade, que deveríamos nos preocupar primeiro em anotar 45 pontos para não sermos rebaixados e aí ver o que mais seria possível, o que nos disse que não seríamos campeões este ano, o único que parecia se preocupar com o futuro do São Paulo, já que não temos presente, o que deixou o time na liderança do campeonato quando foi despedido.

O que temos hoje é um técnico que não é ruim, mas não é bom, um esquema tático que não é ruim, mas não é bom, jogadores que não são ruins, mas não são bons, e temos uma diretoria que prefere, neste contexto, minar o único bastião que nos sustentou nesses anos todos, o Morumbi lotado pela sua torcida.

Os jogadores são briosos, raçudos, não fogem do jogo, não refugam divididas (exceto o Wendell), e é difícil ganhar do São Paulo em qualquer circunstância. É verdade que é um time que num grande dia pode vencer qualquer um do continente, mas a outra face dessa moeda é que pode perder para qualquer um também, como já perdeu bisonhamente para Mirassol, Portuguesa e Vitória este ano.

Voltando ao jogo, embora o Bahia fosse melhor, porque é um time que, apesar de não ser nada disso do que a imprensa aduladora de SAFs, no caso a do Grupo City, proclama, ainda assim tem jogadores melhores, o São Paulo equilibrava na vontade e na torcida, ainda que ambos um tanto tíbios já no início do jogo, talvez já fosse o cansaço.

Certas diferenças sutis fazem, contudo, toda diferença. O Bahia é um bom time que provavelmente não vai ganhar nada, já saiu da Libertadores, eliminado pelo O’Higgins que já derrotamos e que voltaremos a enfrentar na quinta, sequer foi para a Sulamericana, deve deixar a Copa do Brasil em seu primeiro confronto pois já perdeu em casa para o Remo por 3x1. O São Paulo é um time medíocre que está no G4 do Brasileirão, lidera seu grupo da Sula e ganhou o jogo de ida da Copa do Brasil, e que talvez possa ganhar alguma coisa.

Essa diferença se viu aos 15’, quando Cauly pressionou a saída de bola pela lateral direita da defesa bahiana, o chutão foi recuperado rapidamente por Wendell, que se adiantou ao ponta do Bahia, passou no meio de três defensores, e passou é a palavra certa, ninguém dividiu com ele, que não driblou ninguém, a bola parecia sobrar para o zagueiro David Duarte, Wendell incrivelmente ganhou a dividida, da entrada da área virou o jogo para Artur, também na entrada da área, agora do lado direito do ataque são-paulino, dar um leve toque para limpar o restante da zaga que chegava desequilibrada e bater firme no canto direito do goleiro Leo Vieira, no contrapé de todos, 1x0.

Era um jogo interessante para quem assistia, se o São Paulo tivesse a qualidade do Bahia não teria sofrido tanto na defesa e teria aproveitado as chances para fazer outros gols, se o Bahia tivesse a raça e o ímpeto paulista, teria empatado e talvez virado a peleja.

Logo no início do primeiro tempo, antes do primeiro minuto, na primeira jogada, Artur recuperou uma bola mal rebatida pelo goleiro bahiano na intermediária do ataque, conduziu, driblou alguns, atropelou outros, dividiu com um último, nisso já estava de frente para o gol na pequena área, mas chutou em cima do goleiro Léo Vieira, um leve toque para o lado e Bobadilla teria aumentado a vantagem.

Na jogada seguinte, antes do segundo minuto, Artur cobra escanteio da esquerda do ataque, Lucas Ramon cabeceia forte, o arqueiro rebate, o próprio Ramon pega o rebote de costas e tenta virar numa puxeta com a canhota, sem perigo, sente a panturrilha e a diferença física se impunha, teve de ser substituído.

O São Paulo se defendia, o Bahia atacava, nenhum com muita precisão, e perto dos 15’, uma troca de passes esquisita da equipe bahiana na intermediária paulista que a defesa nunca conseguiu realmente cortar, a bola sobra para Luciano Juba, bom jogador, canudo no ângulo de Rafael, que não teve o que fazer, não tinha o que fazer, é daqueles chutes que já se sabe que é gol no momento em que o pé castiga a bola, um gol achado, mas um golaço, 1x1, e o melhor que poderíamos esperar nesse momento é que o Bahia se contentasse com o empate.

A pressão do Tricolor de Aço era meio desordenada, parecia que eles queriam virar, mas parecia também que não queriam tanto assim, e o jogo foi sendo cozinhado. Aos 27’, uma desatenção dos visitantes, Cédric cobra rápido um lateral na defesa para Bobadilla, o único dos que estavam em campo que tem figurinha no álbum da Copa, o médio são-paulino erra o domínio, mas Erick erra o desarme, Bobadilla retoma e, já no meio-campo, enfia Calleri na ponta, o centroavante sequer domina, quase na linha lateral direita do ataque, olha algumas vezes para a área antes de cruzar, um cruzamento alto, longo e forte, longe o bastante para evitar a saída do guarda-metas, preciso no espaço entre a dupla de zaga, perto o bastante para permitir que Ferreirinha, que tinha dado uma ginga de corpo e se desvencilhado acho que de Acevedo, infiltrar entre os marcadores e cabecear forte, sem pular, no canto, a bola bate na trave e entra, indefensável, 2x1, o gol da vitória nos encontrou.

O São Paulo jogava com o coração que faltava ao Bahia, defendia não se sabe como, contra-atacava e perdia gols inacreditáveis.

Faltando uns dez minutos para acabar o jogo, a tragédia, e o fato de ser anunciada não lhe retira a dramaticidade, apenas, talvez, a surpresa, o estafado time são-paulino penava contra a força física dos Tricolores de Aço, quando, numa dívida faltosa, que o árbitro sequer apitou falta, Lucas Moura, que voltava depois de mês e meio fora, com as costelas quebradas, sentiu a perna, não entendi se torceu o tornozelo ou o que foi, saiu chorando, as substituições já tinham se esgotado, seguiríamos com um a menos até o final. Um a menos não, dois a menos, Alan Franco também se lesionou, arrastava-se em campo e mancava, só não saiu para tentar fazer número. Enquanto Lucas era acudido pela equipe médica, via-se uma roda fechada entre os jogadores são-paulinos, possivelmente combinando como fariam para organizar-se na defesa para resistir às investidas inevitáveis do fim de jogo.

Franco foi para o ataque, formou-se uma linha de cinco com Cédric, Sabino, Luan, Enzo e Ferreirinha, todo mundo esgotado e estropiado, Calleri se abaixava a cada jogada, o árbitro inventa sete minutos de acréscimo, Artur e Calleri conseguem escanteios e faltas sucessivas no canto direito do ataque, era o roteiro perfeito para uma vitória épica, redentora, o fim dos urros de “Burro, burro, burro” que novamente se ouviram quando saiu Luciano na última troca, tripla, aos 25’, não tantos gritos, é verdade, o óbvio ululante gritando na cara da torcida, o time estava esfalfado e se não se troca os jogadores eles se lesionariam e desfalcarão o time por semanas, enfim uma vitória para aliviar o técnico, um triunfo com um toque seu, que lançou Ferreirinha, o autor do gol, no segundo tempo e que melhorou o time, só falta o árbitro apitar, por que ele não assopra?, Bahia no ataque, a bola sobe, cruza toda área, uma defesa sem ninguém alto do lado esquerdo, nem sei quem cabeceia, Sabino consegue evitar o gol, a bola parecia que ia para o travessão, só jogue ela pra escanteio, Rafael, ele rebate a bola para frente, Erick, redimindo-se da falha no gol que até então era o da vitória, só cumprimenta de cabeça, quase em cima da linha, a épica redenção fica para os filmes, para a literatura, o que a vida real traz é um novo choque de realidade a cada jornada, 2x2, quem tinha qualidade para ganhar, mas não queria ganhar, não ganhou, quem jogou tudo para ganhar, mas não tinha qualidade para ganhar, não ganhou.

De todas as crueldades que o ser humano é capaz, e já são tantas catalogadas, o gol de empate no último lance certamente é das mais perversas, uma visão absolutamente parcial da minha parte, claro, e que, fossem estas linhas escritas por um tricolor bahiano, a conclusão seria copernicamente oposta.

Quinta jogaremos no Chile, já rifamos o jogo contra o Millonarios, teremos que rifar a partida contra o O’Higgins, porque não podemos chegar com um time escangalhado para jogar o Majestoso em Itaquera no domingo.

Longe de casa, há muito mais de uma semana, milhas e milhas distantes da liderança ou de qualquer taça.