03.12.25 – São Paulo x Internacional
Campeonato Brasileiro, 03.12.2025, Vila Belmiro
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Penúltima rodada do campeonato. Há um sentimento entre o começo do epílogo ou o fim do prólogo. O epílogo de uma temporada decepcionante, melancólica, na qual o time, o clube e a instituição foram definhando a cada rodada, culminando numa derrota acachapante de 6x0 para o Fluminense quando não tínhamos um time e meio de jogadores machucados e suspensos contra o time do nosso excelente ex-treinador Zubeldia, o menor dos problemas que tivemos esse ano, sabendo que já não voltaríamos para casa lamber as feridas, nem temos casa mais, único time que somos a jogar apenas 15 das 19 partidas em casa, culpa do instagramável presidente Casares, envolto na ode de si mesmo enquanto seu reino desaba.
Pode ser também o prólogo de uma temporada nova, que sempre todos os torcedores sonham mais que imaginam que será melhor, bem melhor que a anterior, mal sabem que embora o céu seja o limite o poço jamais tem fundo, com uma inesperada e inexplicável classificação para Libertadores, para a retomada da grandeza, para as épicas batalhas nos pampas, charcos, no Atacama, nos Andes ou na Amazônia, embora haja um corvo sentado no travessão prenunciando o apocalipse e um time ainda pior que o deste ano, ainda mais desvalorizado e desmobilizado por ter sido largado pela diretoria, forte candidato ao martírio de ver perder o pouco de orgulho que ainda tem o são-paulino, o de jamais ter sido rebaixado, logo agora que deixou de ser o soberano brasileiro das Américas, tomara nunca nos tivéssemos alcunhado tão pretensiosa e soberbamente, o paraíso das vitórias é tão efêmero frente ao infindável inferno das derrotas.
A propósito, o clássico de hoje foi o maior clássico interestadual do período soberano do Tricolor. Há cerca de vinte anos, São Paulo e Internacional duelavam pela primazia nos principais campeonatos, uma versão anterior de Flamengo e Palmeiras, o que nos cega para a realidade ao nos fazer achar que esta é só uma fase dos atuais protagonistas. Em 2005, enquanto o Tricolor tornava-se o primeiro brasileiro tricampeão da América e do mundo, o Internacional quase ganhou o Brasileiro, não fosse Márcio Rezende de Freitas e a tunga em Tinga na partida crucial contra o Corinthians, o jogo que para os colorados nunca terminou. Em 2006, decidiram a Libertadores, vitória colorada, seguida da épica vitória sobre o Barcelona do gremista Ronaldinho Gaúcho em seu auge, enquanto nos consolávamos no primeiro de três títulos brasileiros consecutivos, feito único até hoje, as nossas glórias, sabe-se bem, vêm do passado. Ainda decidiriam uma semifinal de Libertadores em 2010, já em clima de despedida para ambos, mas com o segundo título do Inter em cinco anos. Nesse período de seis temporadas, ganharam três brasileiros, três Libertadores, dois Mundiais, disputaram como protagonistas os campeonatos que não venceram, e ainda que não tenham tido o mesmo domínio que atualmente têm Palmeiras e Flamengo, talvez, naquele contexto, tenham conseguido feitos igualmente relevantes.
Hoje ambos são reféns do passado glorioso, que talvez embace os olhos de quem não enxerga o óbvio. O Internacional gastou os tubos para formar um time caro e pouco competitivo, que rateou a temporada inteira e chega na penúltima rodada na zona do rebaixamento, onde só entrou, pelo saldo de gols, após sofrer uma goleada histórica do Vasco após um temporal em São Januário no intervalo do jogo. Confesso que não vi o segundo tempo desse jogo, queria ver (e aqui entre nós, torcer para) o Santos ganhar do Sport, mas tomar uma goleada dessa depois de o campo ficar impraticável dá a medida do buraco do Inter. (Caberia uma crônica inteira para fazer uma correlação do estado de coisas do lado vermelho do Rio Grande após as sucessivas entrevistas do machista Ramon Díaz e do homofóbico Abel Braga, mas rogo que colorados mais habilitados tomem a rédea e a caneta desse fardo).
Já o São Paulo entra em campo logo mais desfalcado de sem-número de jogadores, sem estádio, sem diretor de futebol, que não se sabe se se demitiu ou se foi demitido, sem presidência, já desconsiderada a figuração da rainha da Inglaterra Casares, sem dignidade após o 6x0 no Maracanã contra o Fluminense, e provavelmente sem seu campo caso venha a classificar-se para a Libertadores, no jogo de mata-mata que leva à fase de grupos.
Torcedores já vivemos no mundo de hoje desde que alguém começou a torcer, esse mundo onde não há nada além dos extremos, o mundo das redes sociais que hiperindividualizam, hiperexpõe e transformam todos em protagonistas. Torcedores só conhecemos o céu e o inferno, o técnico, o goleiro, o centroavante caneludo vão de besta a bestial e de novo a besta em minutos. A vida de hoje também é assim, e as pessoas têm sua saúde mental em frangalhos por causa de algo que nós torcedores já conhecemos há muito. Entre o drama do rebaixamento, esse que hoje vive o Inter, e o desejo da glória de voltar para Libertadores (e todo são-paulino sabe que, esse ano, nós vamos ganhar a Libertadores), entre o céu e o inferno, o medo maior não é o de cair ou de não ser campeão, o que mais tememos é continuar na profunda obscuridade da mediocridade, aquela que nos coloca no oitavo lugar, que no Brasileiro é o último dos primeiros ou o primeiro dos últimos, sem ver nem ser visto, tão longe da glória eterna quanto do drama redentor, aquela velha história contada por um idiota, cheia de som e fúria, que não significa nada.


