04.02.26 – San-São
Santos 1 x 1 São Paulo, Brasileirão, 04.02.2026, Vila Belmiro
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Outro San-São, agora na Vila Belmiro, achava um barato quando os locutores de rádio a chamavam de “a Vila mais famosa do mundo”. Nada de arena, estádio raiz, alçapão, torcida em cima, difícil ganhar lá.
Tenho um carinho especial pela Vila, foi lá a primeira vez que fui a um jogo do São Paulo, acho que era abertura do Campeonato Brasileiro de 1992, empate de 1x1, passávamos férias em Itanhaém e tínhamos viajado com uma família de amigos dos meus pais, o pai e o filho eram santistas, fomos ao jogo no meio da torcida do Santos, não lembro de nada daquele dia, de como chegamos, de como voltamos, de como entramos ou saímos do estádio, mas lembro perfeitamente do local em que ficamos, de ficar estupefato vendo de perto Raí, Müller, Antônio Carlos e Ronaldão, e do tapa do meu pai que levei na nuca, suficientemente forte para entender a mensagem, suficientemente fraco para doer apenas na alma, assim que abrimos o placar e eu ameacei gritar gol. Nunca tinha pensado nisso antes, mas talvez todos os gritos de gol que continuo a urrar sejam um pouco daquele grito reprimido, amores e afetos não se reprimem.
Tenho boas lembranças também de jogos no dia do meu aniversário, 4 de fevereiro, normalmente ganhamos, a primeira vez que levei meus filhos ao estádio foi nesse dia em 2015, triplete do Pato no Capivariano, 4x2, nosso último título foi nesse dia, em 2024, na Supercopa contra o Palmeiras.
Depois das vitórias sobre Flamengo e Santos, estávamos confiantes para jogar até contra um combinado do Barcelona com o Manchester City. Quando saiu a escalação, contudo, sem Marcos Antônio e Luciano, o melhor jogador e o mais decisivo, senti que seria um pouco mais difícil do que eu queria.
Ainda assim, o time iniciou bem e controlou o jogo. O Santos, evidentemente, jogava melhor do que sábado, nem havia espaço para ser pior que aquilo, ao menos competiam e não permitiam, em casa e apenas com seus torcedores, patrocínio da incompetência da PM e do MP paulistas, que o São Paulo os amassasse como tinha feito quatro dias antes no Morumbi.
Aos 17’, o lance capital que nos daria a vitória virou apenas uma nota de rodapé. Num contra-ataque rápido, Calleri foi lançado e já partia sozinho para o gol perto da linha de meio campo após girar o corpo em torno do zagueiro Adonis Frias, seria apenas o 9 e o goleiro Brazão, Calleri é agarrado, o péssimo apitador Anderson Daronco, com a pose melancólica daqueles que fingem fazer justiça quando sabem que estão pavimentando artifícios, ardis ou outros meios fraudulentos, ergueu imponente o cartão amarelo, e ficou por isso mesmo. Com um a menos e um tempo e meio por jogar, o Tricolor jantaria o Peixe, vimos o que aconteceu no sábado.
É péssimo jogar dois jogos seguidos com o mesmo time por competições diferentes. Às vezes em copas e disputas em ida-e-volta isso é inevitável, mas por torneios diferentes, ainda mais entre rivais tradicionais, é evidente que o que acontece no primeiro jogo condiciona a partida seguinte, ainda que uma coisa não tenha absolutamente nada a ver com a outra. Estava claro que Daronco não expulsaria nenhum santista, muito porque a vitória são-paulina no encontro anterior foi construída sobre a vantagem numérica de atletas, mesmo tendo sido indiscutível o acerto na expulsão de Gabriel Menino que, aliás, depois das bobagens que fez sábado, surpreendentemente era escalado como titular de novo e contra o mesmo adversário.
E há essa figura maldita do futebol, o árbitro. Aquele que, quando é muito bom, as pessoas apenas o toleram, enquanto o mais comum é serem execrados e amaldiçoados, muitas vezes pelos torcedores dos dois times, e a todos de sua árvore genealógica. O árbitro é essa pessoa atacada pela frustração abominável de não ter sido bom o suficiente para fazer o que mais gosta, que é jogar bola, e para ficar perto do jogo que tanto ama admite ser o alvo masoquista dos piores impropérios e da raiva de milhares no estádio e milhões fora dele, a escuma do futebol, quando nasceu, um anjo torto desses que vivem na sombra disse, vai, Anderson, ser árbitro na vida. Obviamente, esse amor não correspondido traz traumas e chagas, e o objeto do amor passa a também ser o que alimenta o ódio, e nessa relação paradoxal vemos o árbitro que parece odiar o jogo, que faz tudo para torná-lo inviável, não deixa a bola correr porque marca qualquer coisa ao mesmo tempo que não marca as coisas que importam, sucumbir à vaidade débil de se ver como protagonista enquanto todos o olham como antagonista.
O jogo seguiu, o São Paulo melhor, Tapia e Bobadilla tiveram boas chances de dentro da área, uma para fora, a outra bem defendida por Brazão, e num chute aleatório do mesmo Adonis, que já era para não estar jogando, último lance do primeiro tempo, aos 50’, um acréscimo inexplicável, a bola muda de trajetória em várias curvas, Rafael defende mal e espalma para frente, e Zé Rafael faz no rebote.
Um balde de água gelada para quem acalentava silenciosamente o sonho de liderar o campeonato nem que fosse por apenas uma rodada.
O Tricolor voltou bem para o segundo tempo, talvez até melhor que no primeiro e atacava o Santos.
Aos 8’, num lance morto de meio-campo, Zé Rafael, que entendeu a arbitragem que havia e provavelmente acertando contas da partida de sábado, cravou as travas da sua chuteira no ombro de Enzo Díaz, uma típica agressão já que o movimento era absolutamente desnecessário para acertar a bola, embora servisse para mostrar “virilidade” para a torcida santista, sempre desconfie de quem precisa mostrar virilidade, Daronco passou pano, amarelo, vida que segue. Poucos minutos depois, assim que Marcos Antônio e Luciano vieram a campo, na primeira jogada do atacante, recebeu na entrada da área e partia em direção ao gol para finalizar, o mesmo Zé Rafael faz uma falta por trás, infração apitada mas sem qualquer outra admoestação, Daronco distribuía salvo-condutos, ainda faltava mais de meio tempo e uma expulsão teria um efeito crucial para o resultado do jogo.
Aos 20’, do meio-campo Bobadilla lança Maik avançado pela lateral, que num passe de primeira abre na ponta para Lucas, impressiona como Maik evolui a cada jogo nesta temporada, um passe de classe, Lucas parece ao menos encontrar lampejos do excelente jogador que foi, desatou o placar no sábado, cruzou perfeitamente na cabeça de Calleri hoje, para o melhor cabeceador que joga a oeste do Atlântico e a leste do Pacífico, bola perfeita no canto, 1x1.
O restante do jogo ainda foi de controle tricolor, embora o Santos tenha tentado um suspiro final quando o crepúsculo do jogo, outra expressão que eu adorava das locuções de rádio, já se avizinhava.
Um sentimento agridoce, sabendo que poderíamos ter vencido a partida, mesmo com a arbitragem desastrosa de Daronco. Com 6 pontos, seríamos líder.
Não podemos desconsiderar, contudo, que quando as tabelas do Brasileirão e do Paulista foram divulgadas, o mais provável era que terminássemos a segunda rodada do nacional na zona de rebaixamento, sem pontos.
Um empate morno, sem o épico da virada que nos levaria à liderança, sem a tragédia da derrota que talvez nos dragasse novamente para o caos. A day in the life, como são os aniversários.
