07.02.26 – São Paulo 2 x 1 Primavera
Campeonato Paulista, 07.02.2026, Morumbi
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Cresci em Botucatu ansiando por ir ao estádio. Era uma época que sequer conseguíamos assistir aos jogos na tevê, transmitia-se apenas um por rodada, tínhamos que ouvir pelo rádio, ouço jogos pelo rádio até hoje, demorei muitos anos para contratar as assinaturas que dão acesso aos jogos, mantive o hábito de ouvir no rádio os jogos que não tinha como assistir embora estivessem sendo transmitidos pelos canais pagos. Naquela minha época de fim de infância e começo de adolescência, o Campeonato Paulista era tão importante quanto o Campeonato Brasileiro, dividiam o protagonismo de nossas ambições porque cada um era jogado em um dos semestres do ano. Atormentei meu pai para me levar ao estádio não sei quantas vezes, a única coisa que insisti com meu pai ao longo dos anos e que ele nunca me fez foi me levar ao estádio, ele que tentava fazer tudo para mim, eu, que nessa época já trabalhava com ele, que nunca pedi o que ele não podia fazer.
Noroeste, XV de Jaú e XV de Piracicaba em algum momento atravessavam o caminho do São Paulo na década de 90, todos na região metropolitana botucatuense, e eu só invejava os palmeirenses, os corinthianos e principalmente os são-paulinos que iam a esses jogos, aquela primeira aula da quinta-feira como um tapa na cara dos meus sonhos de torcedor, o dilema entre ignorar para fingir a desimportância do que mais nos importava e me render a ser um mero espectador do relato daqueles que foram testemunhas oculares do que nos havia de mais precioso.
Vendo que meu pai não sairia de Botucatu para me levar a jogo nenhum, comecei a alimentar o sonho de que houvesse algum time botucatuense na primeira divisão do Paulista, um jogo no campo da Ferroviária, onde eu jogava de lateral-direito porque não tinha condição alguma de ser o ponta-direita, Botucatu que nunca teve sequer um time profissional masculino desde que me conheço por gente, embora tenha tido um excelente time feminino na década de 2000, tricampeão paulista e campeão da Copa do Brasil, com jogadoras da seleção, justo num momento em que eu me fingia que me divorciava da minha cidade natal, já morando na capital para me graduar em Direito, ela que nunca saiu de mim.
Antes dos meus 18 anos, fui só duas vezes ao estádio, uma com meu pai, que me levou porque um amigo dele nos levava, aquela visita à Vila Belmiro, outra quando enfim conheci o Morumbi, um São Paulo x Bahia xoxo, reserveira total, o time titular do Tricolor todo concentrado com a Seleção que no dia seguinte disputaria a partida definitiva contra o Uruguai no Maracanã pela última vaga sul-americana para a Copa de 94.
Hoje, meus filhos moram em Indaiatuba, onde também moro na metade da semana que estou com eles, e realizei com eles e com o Primavera o meu sonho de criança, ter um time na nossa cidade, os pais têm disso, frustrar-se e regozijar-se com as vivências de sua prole como se fossem a sua, principalmente daquelas que não vivemos, os sonhos que sonhamos dormindo se perdem, os que sonhamos acordados vivem, se escondem, fingem que desapareceram até finalmente ressurgirem, imponentes, quantos não chamariam isso de destino, outros tantos falariam de astrologia, uma das belezas da paternidade é ver nossos sonhos se realizarem em quem nós mais amamos.
Ano passado fomos assíduos, eu mais que eles, ao estádio Ítalo Mário Limongi, na campanha da A2 que levou o Primavera à primeira divisão, um mundo próprio e particular onde, embora o time hoje seja uma SAF, vendia-se cerveja no estádio a despeito da lei estadual que a proíbe e que, na semifinal, quando se definiram os promovidos, a invasão do campo pela torcida indaiatubana após a vitória sobre o XV de Piracicaba foi a coisa mais natural a se fazer, cada um goza sua pequena catarse como se fosse uma epopeia, eu que fui o único que restou na arquibancada talvez tenha sido também o único a ver a beleza da cena dos meus filhos, seu primo e uma amiga, viverem livres, aprenderem a viver um sentimento que era deles mas que antes deles eram de todos que estavam ali, viver um sentimento que todos viviam juntos e que só fazia sentido porque era coletivo, três são-paulinos e um corinthiano, que em nenhum momento tiveram suas convicções futebolísticas abaladas, e que, ainda assim, se permitiram, como a inocência permite, viver como único aquele momento que de fato era único. Da arquibancada, sozinho, todos no campo, jogadores e torcedores, eu, que tenho mais jogos no Morumbi que qualquer jogador do elenco tricolor atual, via meus filhos viverem meu sonho de infância.
Certas pessoas não entendem como um torcedor fanático de um time pode torcer para outros times. Eu, que vou a estádios onde quer que esteja, que além de torcedor sou admirador do jogo, que lhe rezo reverência, sei bem que num coração cabem muitos afetos, alguns amores e apenas uma paixão.
Ainda em novembro do ano passado, assistíamos ao sorteio dos confrontos do Paulista com uma única expectativa, a de que não houvesse São Paulo e Primavera. Como o que era uma chance em quatro se realizou, paciência, fomos ao Morumbi esperando que o Tricolor amassasse o Fantasma.
O time misto era previsto, embora esperássemos um time completamente reserva, a razão estava com Crespo, que já sabia que os reservas não ganhariam o jogo, como depois se viu. Ainda assim, foram os primeiros 25 minutos de maior superioridade do São Paulo sobre qualquer outro time, algo até previsível depois do deslumbramento dos jogadores do Primavera porque muitos e talvez todos jogassem pela primeira vez no Morumbi, o time inteiro foi participar da foto do jogo, todos os reservas, aquela foto clássica com cinco ou seis defensores de pé e os demais agachados que se tira antes de uma partida virou o registro do elenco completo.
O Primavera é claramente um time de segunda divisão que só depois que o baile começou percebeu que não tem roupa para a festa. Permanecer será um feito, é um time fraco técnica e fisicamente, muito aquém da maioria. O futebol, contudo, é a feira dos milagres, e a goleada que se avizinhava, inevitável tamanha a pressão que o São Paulo exercia, não só não vinha como subiu no telhado.
Aos 36’, Tapia, numa bola esticada, se choca com o goleiro e o zagueiro Afonso, irrecuperado, saiu de ambulância, me correu um calafrio na espinha, eu que estava olhando diretamente para Izquierdo, fora do lance de bola, quando ele caiu desacordado naquele jogo de Libertadores contra o Nacional. O jogo ficou estranho, o reserva Renato Vischi, que era titular na campanha do acesso no ano passado, entrou apenas para bater, parecia até que cavava sua própria expulsão.
Vem o segundo tempo, Crespo se enrosca, inventa um esquema com dois zagueiros que nunca funciona com esse elenco, parecia o jogo contra a Portuguesa, era questão de tempo para tomar um gol, embora talvez fizesse também, uma roda da fortuna que nenhum torcedor espera para um jogo como esse, Primavera encaixa um contra-ataque antes dos 3 minutos e Wellington Matheus perde um gol na cara, defesa monstruosa de Rafael (que a repetiria no último lance do jogo), o rebote que ele deixou vivo na área, chutou, ainda caído, no centroavante Poveda e evitou o gol.
Não gosto de filmes de terror, para mim me bastam essas partidas nas quais o São Paulo, que deveria golear, sofre. Pouco tempo depois, antes dos 10’, para quem estávamos no estádio, era visível que o time estava desorganizado, foi recuando, parecia aqueles times italianos que vão todos para trás e dentro da área, havia uma linha de cinco defensores, ainda assim Poveda conseguiu finalizar, a bola desviou em Ferraresi, que partida esquecível, Rafael ficou vendido, 0x1.
Em nenhum momento Crespo corrigiu seus erros táticos e preferiu enfileirar seus melhores jogadores, rifou nosso próximo jogo em casa contra o Grêmio, e como a qualidade técnica dos tricolores era muito superior à dos jogadores do Primavera, a virada veio apesar do técnico.
O São Paulo atacava com volúpia e sem perigo, exposto aos contra-ataques indaiatubanos e a um novo vexame como o contra a Portuguesa.
Aos 25’, Alan Franco corta de cabeça um ataque, lançando meio sem querer Luciano no meio do campo, que enfia na ponta esquerda para Calleri, um cruzamento que parecia perdido no segundo pau, Lucas Ramon, que acabara de entrar, salvou a bola para dentro da área, Danielzinho, que também entrara há pouco, tinha um milhão de coisas para fazer e fez a única certa, de costas para o gol rolou a bola não mais que 30 cm para Lucas que enfiou o pé no ângulo. Sua comemoração foi interrompida pelo inimigo da felicidade, o bandeirinha preferiu, contra todas as evidências, ser o xarope da noite e invalidar o gol e sequer ruborizou quando o VAR confirmou sua validade, consagrado o empate, a virada era viável.
O São Paulo atacava mal e concedia muito espaço na defesa. O jogo claramente só se resolveria com a superioridade técnica dos jogadores tricolores, torcendo para que eles não falhassem.
Perto dos 30’, o São Paulo circundava a área sem muito perigo, o Primavera todo retraído, e o zagueiro Vischi, já fora da disputa da bola, desfere uma cotovelada em Luciano, uma jogada clássica de intimidação na segunda divisão, sem os holofotes do protagonismo, VAR acionado, pênalti e expulsão, ele que já tinha cartão amarelo em seu primeiro lance, Calleri preciso, 2x1, o melhor, diante das circunstâncias era cozinhar o jogo e garantir o resultado.
O que eu preferiria descrever é que não tinha acontecido mais nada, mas a bagunça que se tornou o time ainda permitiu um último chute do Primavera, a defesa bateu cabeça, Josiel finalizou e Rafael fez outra defesa espetacular.
Vitória garantida, agora sem risco de rebaixamento, uma provável vitória contra a rebaixada Ponte Preta na última rodada vai classificar o time para as quartas-de-final. Tem jogo que se ganha desfilando, tem jogo que se ganha na unha, tem jogo que se ganha e nem se sabe como. Hoje era preciso ganhar.


