07.05.26 – O’Higgins 0 x 0 São Paulo
Sulamericana, 07.05.2026, El Teniente, Rancagua, Chile
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Sempre achei curioso esses times que têm nomes de pessoas. O caso mais clássico para nós, brasileiros, é Vasco da Gama, o grande navegador da época áurea do império português, que transformou o Cabo das Tormentas no Cabo da Boa Esperança, o primeiro europeu que se tem notícia a contornar a África para chegar à Índia, a sua fama assim se fez, um nome um tanto aleatório para um time de futebol brasileiro, mas que ganha muito sentido para um Clube de Regatas da colônia portuguesa no Rio de Janeiro (como nome de time, certamente é melhor que Pedro Álvares Cabral ou Fernão de Magalhães, o costume tem disso, nos habituar com o que talvez beire o absurdo). Há outros casos, uns famosos, outros nem tanto, o Vélez Sarsfield na Argentina, o Gil Vicente em Portugal, Willem II na Holanda, alguns Tiradentes no Brasil, onde também se encontra ao menos dois Sampaios Correas, adoro aquela camisa linda listrada de amarelo, verde e vermelho do maranhense, isso sem contar os que homenageiam as próprias cidades que também levam o nome de alguém. Há, ainda, os batizados com nomes de personagem, o Ajax da Holanda e a Atalanta na Itália, inspirados na mitologia grega, e o Robinhood, meu time no Suriname (sim, eu tenho um time no Suriname, nunca se sabe quando se vai visitar o Suriname e sim, se escreve sem espaço)
Já pensava nessa história do nome desde o primeiro turno, O’Higgins é um dos homenageados pelo melhor nome de torneio que conheço, em qualquer esporte ou modalidade, Libertadores da América, um dos principais expoentes da independência chilena, o general, não o time, embora o clube não rivalize com Colo-Colo, a grande potência do futebol chileno e que homenageia um dos líderes mapuches responsáveis pela resistência contra a invasão espanhola, nada mais libertador que isso em um campeonato que ainda conta com o Palestino.
Nunca tinha me dado conta que o nome do meu time também é o nome de alguém, ok, a homenagem nem é à pessoa e à cidade que lhe sedia, é ao estado, tanto que suas cores remetem às da bandeira paulista, não as da bandeira paulistana que são apenas branca e vermelha.
Ainda assim, se é possível estabelecer algum liame com o fato de clubes de futebol escolherem nomes de pessoas para se intitular, é porque, de algum modo, isso remete a um passado glorioso, extraordinário, a grandes feitos e grandes conquistas, como se isso pudesse agora inspirar os atletas que passam a defender essas cores, imagino que a grande maioria dos jogadores sequer pensa nas pessoas ou personagens que inspiraram o nome do clube, quanto mais bem-sucedido o time vai se tornando, tanto menos se lembra da figura mítica que inspirou sua alcunha e o nome do time passa a ter vida própria, supera quem lhe originou e passa a ser, ele mesmo, responsável por novos feitos grandiosos. Ao pesquisar Vasco, Vélez, Colo-Colo ou São Paulo no Google, os times e as notícias relacionadas a eles são o que primeiro aparecem (embora eu suspeite que no caso de “São Paulo” eu tenha enviesado o algoritmo).
Esse jogo de hoje estava cercado por essa aura dos feitos pretéritos, bem se sabe que nossas glórias vêm do passado, a imprensa chilena, pelo que narrava a transmissão, nomeou esse como o jogo mais importante do El Teniente, o estádio do O’Higgins, já que o São Paulo era o time mais laureado internacionalmente a disputar uma partida lá.
Cada time tem sua identidade, e se o palmeirense gosta de reclamar de tudo e de todos, e talvez aí esteja o segredo do casamento com Abel Ferreira, não há nada de que reclame mais do que do próprio time, principalmente quando está ganhando. O corinthiano, a antítese, comemora cada pequena migalha como se fosse a última, todos seus jogadores são os melhores, todos os seus resultados são épicos, a ponto de Fernando Diniz dizer ontem que o empate no final do jogo contra o Santa Fé em Bogotá seria lembrado como um jogo inesquecível e isso sequer ter sido considerado uma anedota ao longo do dia de hoje. Nós, são-paulinos, estamos acima dessas picuinhas, voamos voos mais altos, internacionais, o mundo é pequeno para nós, nosso campeonato é a Libertadores, e se esse ano jogamos apenas a Sulamericana, é algo circunstancial, vamos ganhá-la este ano para vencer a Libertadores ano que vem.
Esse sentimento é uma faca de dois gumes, confesso. Ganhamos três Libertadores, e perdemos todas as outras que disputamos porque alguém rateou, se tivesse acertado aquele passe, se tivesse feito aquele gol, se o bandeirinha tivesse anotado o impedimento na semifinal de 2010, se a zaga não estivesse dormindo no lateral na semifinal de 2004, se o Ernesto Filipe tivesse apitado a jogada de vôlei do zagueiro do Vélez em 1995, se o Josué não tivesse sido expulso na final de 2006, se Lucas e Calleri não tivessem perdido pênaltis nas quartas de 2024 ou se Cédric não estivesse com dor de barriga no primeiro jogo das quartas em Quito em 2025, clara e absolutamente jamais foram melhores que nós e nos venceram, perdemos para nós mesmos ou para a arbitragem da Conmebol que sempre prejudica os brasileiros.
Fomos ao Chile para ganhar, porque nossa soberba claramente nos faz acreditar que com um time reserva, três garotos em campo, dois deles estreando como titulares, dois zagueiros canhotos e nenhum destro, seríamos amplamente favoritos contra o O’Higgins, vá lá, ele ganhou da Espanha no Chile, nós já ganhamos do Barcelona, do Milan e do Liverpool no Japão. Incrivelmente, quem mais parecia acreditar nessa falácia era o próprio O’Higgins, que tinha jogado melhor no Morumbi do que jogou hoje, certamente é melhor que Millonarios e Boston River, mas não fez nada no primeiro tempo a não ser atormentar o inseguro Igor Felisberto, um dos meninos estreantes, que no primeiro tempo errou quase tudo, mas se acalmou e melhorou no segundo, o outro garoto debutante, Osório, zagueiro, foi regular, o que já era o bastante para o contexto. Do nosso lado, o pouco que fizemos na primeira etapa foi desperdiçado por finalizações horríveis de Ferreirinha.
Quando o jogo volta para o segundo tempo, parece que o O’Higgins fingiu esquecer contra quem jogava e fingiu não temer o todo-poderoso São Paulo. Aos 30’’, Sarrafiore, bom jogador, de dentro da área acertou uma pedrada no travessão, antes dos 5’, um chute desviado em Tapia também beijou a trave. González, pela esquerda da nossa defesa, aparecia toda hora livre, a sorte é que ele não é bom como Sarrafiore, cara-a-cara com o goleiro Coronel, meio sem ângulo, é verdade, bateu firme para uma bela defesa do nosso arqueiro, e, numa jogada posterior, quando novamente apareceu livre, agora com a meta mais aberta, sentiu o pior sentimento que pode afligir um jogador de futebol, a paúra inenarrável de perder um gol, tentou um cruzamento pelo alto para a cabeçada do centroavante Castillo, nossa zaga cortou, o time chileno jogava o jogo de quem queria ganhar mas respeitava demais o gigante que lhe visitava.
Aos 14’, Cauly retoma a bola na defesa, puxa o contra-ataque, conduzindo a bola de perto de nossa área até que André Silva se deslocasse para receber um belo passe na intermediária da lateral esquerda da defesa chilena, Tapia se deslocando pelo centro, eram 2 contra 2, André acerta um lindo passe de trivela, não daqueles fracos, que demoram muito tempo no ar e que atrasam a jogada e que têm acontecido bastante em todos os níveis do futebol profissional, ao contrário, um lançamento preciso, forte, tirando dos dois defensores e deixando Tapia na cara do gol para que ele perdesse a extraordinária oportunidade de vencer a partida, defesa estupenda do goleiro Carabali, muito em razão da péssima finalização, alguns jogadores não se entende porque são reservas, outros nos arrebentam a certeza na cara a cada nova partida.
O jogo seguiu, o O’Higgins pressionando, a defesa tricolor se aguentando, não ia sair gol mesmo, são times que nem na Libertadores estão, o oxo não nos era ruim, fomos para manter a liderança com o empate e resolver a classificação em casa, se eu fosse palmeirense, estaria arrancando os cabelos, se fosse corinthiano, comemorando mais um empate épico do lado de lá dos Andes, sou são-paulino e sei que nossas classificações nós garantimos no Morumbi.
Ao final da partida, muitos jogadores do O’Higgins ressuscitaram uma prática milenar hoje em desuso e pediam para trocar camisetas com os são-paulinos, não é todo dia que se joga contra um dos maiores times do mundo, a sombra de nossa grandiosidade ainda comove e acalenta alguns incautos corações.
Houve um tempo em que éramos o time brasileiro mais temido pelos vizinhos sudamericanos. Nossa soberba foi nossa ruína, tivemos o maior espetáculo da Terra e hoje montamos tendas acachambradas para apresentações de um circo mambembe, valendo-nos de nosso passado glorioso, um império caído, gravado nos livros de história, é fato, mas que hoje é um arremedo do que outrora foi. Agora precisaremos ganhar as duas próximas partidas da Sula em casa para classificar em primeiro e evitar jogar uma fase e dois jogos a mais.
Fortune, fame
Mirror vain
Gone insane
But the memory remains
