07.12.25 – Vitória 1 x 0 São Paulo
Campeonato Brasileiro, 07.12.2025, Barradão
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Já se vão uns bons anos que vi um vídeo publicitário de uma emissora uruguaia vendendo seu campeonato nacional. Havia, evidentemente, imagens de Nacional e Peñarol, mas também dos demais clubes, os mesmos vídeos que sempre se produzem com lances marcantes ou espetaculares. O que me chamou atenção foi o texto. Era algo como “o melhor campeonato do mundo. Porque é o nosso campeonato”. Tentei achar o vídeo no Youtube para confirmar se era isso mesmo ou se apenas foi uma memória afetiva criada. O certo é que me lembrei desse vídeo que nem sei se existe ao acompanhar a última rodada do Brasileiro.
Não há nada melhor do que esse torneio. E, sim, primeiro porque é o nosso campeonato. E isto não é pouca coisa imaginando que os times brasileiros têm algumas das maiores torcidas do mundo se consideradas apenas os torcedores dos respectivos países (e o vídeo uruguaio me parecia uma crítica sutil à paixão veraneia que muitos nutriam e nutrem pelas La Ligas e Premier Leagues da vida).
Segundo, não conheço outro campeonato no mundo tão equilibrado e que seja tão ferrenhamente disputado até sua derradeira rodada. Nunca houve, nos pontos corridos brasileiros, uma última rodada protocolar. Isso se explica pelo grande número de rebaixados, 4, o maior de qualquer grande liga do mundo, e da dúzia de vagas em competições internacionais. Mesmo quando as quatro primeiras posições já estavam definidas, como neste ano, ainda assim oito das dez partidas finais tinham alguma relevância. Há um terceiro ponto, que tende a ficar cada vez mais distante, de que a diferença entre o primeiro e o último é a menor entre as principais ligas. A ascensão exponencial de Flamengo e Palmeiras coloca em xeque esse último argumento, embora a média geral certamente seja uma das melhores. Exceto o campeonato inglês, tem muito time ruim nas primeiras divisões de Alemanha, Itália, Espanha, França e quase todos em Portugal e Holanda. A liga argentina, com seus trinta times e uma reiterada prática de viradas de mesa para evitar novos rebaixamentos, tem tantos jogos irrelevantes, onde além do mais não se pode torcida adversária, que se tornou algo chatíssimo.
Com a exceção dos meninos do Flamengo, alguns deles que ainda viajarão para o Catar e que quase ganharam do surpreendente Mirassol no interior paulista, e do Corinthians e seu pensamento fixo na Copa do Brasil há muitas rodadas, que conseguiu a proeza de empatar em casa contra o rebaixado Juventude, em verdadeiro clima de fim de feira, tudo o mais valia. O Ceará precisava vencer o Palmeiras para não correr riscos, assim como o Santos contra o Cruzeiro. No que parecia o melhor jogo da rodada e que não assisti em nenhum momento, Fluminense e Bahia duelavam pela última vaga na fase de grupos da Libertadores, mas um empate abriria a chance para o Botafogo que, caso vencesse o Fortaleza que, por sua vez, precisava da vitória para escapar do patíbulo, passaria ambos na reta final. Vitória contra São Paulo e Inter versus Red Bull envolviam dois times lutando contra a queda e dois disputando a oitava posição que, num passe de mágica semana que vem, pode levar alguém mais perto da zona do rebaixamento do que da sétima posição para a Libertadores. Atlético e Vasco brigavam por vaga na Sulamericana e o Sport, contra o Grêmio, lutava pela dignidade de não ser a pior equipe da história dos pontos corridos, um ponto lhe bastava para superar o América de Natal de 2007, a goleada gremista foi o trágico capítulo final de um time que só venceu duas das suas 38 partidas.
Cheia de expectativas, a última rodada foi emocionante e angustiante, cada gol marcado mudando a zona de rebaixamento. A disputa pela última e ainda inexistente vaga para a Libertadores desafinou, deixando claro que o mais correto seria a CBF abrir mão dessa vaga. Sabendo que o Vitória seria favoritaço no Barradão precisando ganhar do meu claudicante São Paulo para se safar da Série B, ainda mais quando vi a figura de Wilton Pereira Sampaio segurando a bola do jogo entre dois indígenas antes do início da peleja (e, verdade seja dita, sua arbitragem não atrapalhou o jogo ontem), temia mesmo era uma vitória do Red Bull ex-Bragantino no Beira-Rio, imaginava os colorados em frangalhos depois das traulitadas que lhe aplicaram o Vasco e o próprio São Paulo, dois dos times mais medíocres deste ano. Assistia aos dois jogos simultaneamente e é impossível dizer quem foi pior, mas nesse caso tenho por princípio que o pior foi o RB, que precisava ganhar e jogou pra perder, o futebol não admite que os lucros estejam acima dos resultados esportivos.
Não torço nem nunca torci para o meu time perder, nem quando a torcida vituperou isso das arquibancadas, hostilizando Grafite por ter feito os dois gols no Juventus que livraram o Corinthians da segunda divisão paulista, mas confesso que preferia que o Vitória permanecesse na A e caísse o Inter, um pouco de simpatia com os baianos, muito de trauma por 2006 e 2010.
O momento que resume quão épica é a derradeira rodada brasileira foi o lance no qual o Botafogo mataria o jogo, abrindo 3x1, quando o VAR anula o gol por ter havido, antes, um pênalti para o Fortaleza que, convertido e empatado o jogo em 2x2, livrava o Leão do Pici do cadafalso para lá empurrar o Colorado. Triste foi ver os irmãos e rivais cearenses abraçados atravessando o Estige para se reencontrarem ano que vem na Série B.
Aliás, o degredo do Ceará é a prova cabal de que o Brasileiro não se abandona e se joga até o final. Após a 33ª rodada, quando o Vovô tinha vencido o Corinthians em Itaquera, alcançara 42 pontos, nove a mais que o Santos, que naquele momento era o primeiro time na zona de rebaixamento. Perdeu em casa para o Inter na rodada seguinte, no confronto direto que se mostrou crucial para o futuro de ambos, e ao fazer apenas um ponto contra os quatro melhores colocados nas últimas rodadas, mesmo após abrir o placar contra o Palmeiras na rodada decisiva, viu ruir uma campanha que parecia razoável para um time que acabara de voltar para a Série A.
Ninguém nega que a Nação é a maior torcida do país, e parece normal depois da temporada rubro-negra o monopólio midiático na cobertura esportiva, conquanto seja um pouco ufanista demais já antever um possível título mundial contra o PSG, o Rennes que o diga após a sova que levou no sábado. O futebol, assim como a história, pode até ser contado sob as lentes dos vencedores e dos protagonistas, mas ele só é grande e importa para tanta gente porque é construído por pessoas comuns que torcem para times ruins, que ganham ou perdem na última rodada, que são rebaixados ou sobrevivem mais um ano apenas para cair no ano seguinte, que sofrem e esperam, que ralham para quem quiser ouvir quão péssimo é seu time, apenas um escudo para o que internamente sentem, de que dessa vez virá, dessa vez vai dar certo, dessa vez a bola vai bater na trave e entrar, ano que vem seremos campeões, os acontecimentos banais que constroem o futebol como uma vivência coletiva e que alimentam os outros dezenove times para a próxima temporada. Afinal, é o melhor campeonato do mundo. Porque é o nosso campeonato.
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Não sei como o São Paulo conseguiu terminar em oitavo. O que sei é que se Cruzeiro ou Fluminense ganharem a Copa do Brasil, ganharemos a Libertadores de 2026.
