08.02.26 – Dérbi

Corinthians 0 x 1 Palmeiras, Campeonato Paulista, 08.02.2026, Neo Química Arena

6 min read

Um clássico só ganha esse nome justamente por ser um clássico, e normalmente é o jogo mais importante de um lugar, talvez só não onde há mais de um clássico, embora sempre um deles seja o mais importante. Não sei dizer qual o principal clássico do São Paulo, acho que a maioria pensa ser o Majestoso, eu e alguns outros sempre preferimos vencer o Choque-Rei, mas só de não sabermos quem é nosso maior rival já sabemos o que não somos: o nêmesis de Corinthians e de Palmeiras.

Vivendo em São Paulo, andando por suas ruas, avenidas, bares e padarias, no meio do barulho caótico do trânsito teratológico, daquele intermitente bip-bip da buzina das motos que galopam furiosamente entre os carros, o cinza e o asfalto são testemunhas de que, aqui, não há nada como um Palmeiras e Corinthians, o Dérbi. Não à toa, é o único clássico paulista que não recebeu nome algum, parece Real Madri e Barcelona e seu El Clássico, já que dérbi, no futebol, descreve exatamente isso, um jogo clássico.

A imprensa descrevia este Dérbi ao longo da semana como “o jogo maior que o campeonato”, e mesmo que pareça um clichê, é a mais pura verdade, alguns clichês só o são por traduzirem fielmente a verdade, embora nos canse ouvi-la. Não há nenhum outro jogo mais importante para palmeirenses e corintianos que o Dérbi, nem há nenhum outro que os aproxime mais da consagração do paraíso ou da danação eterna, a eternidade que é o período até o próximo Dérbi. Hoje talvez valha mais vencê-lo que sagrar-se campeão paulista em uma final contra o Capivariano.

O enredo prévio era perfeito: o Alviverde impotente, único capaz de competir contra o poderoso Flamengo, seja em dinheiro, estrutura ou elenco, levou uma sova do Corinthians no ano passado, ganhou apenas um de sete jogos, perdeu a final do Paulista e foi eliminado da Copa do Brasil pelo maior rival, que levantou as duas taças, feito este, levantar taças, que há dois anos o Palmeiras não consegue. Mais uma derrota para o Corinthians poderia ter efeitos catastróficos, enquanto uma vitória palmeirense seria redentora e devolveria ao clube o seu favoritismo.

O jogo começou tenso e disputado, Corinthians ligeiramente melhor, mas nunca superior, eu mais ouvindo do que vendo, terminando de preparar o jantar.

Não cheguei a ver a presepada do Hugo Souza tentando driblar Flaco López, foi num lance desses que ele perdeu a bola para Brenner na Copa do Brasil da pandemia, quando ainda jogava no Flamengo e era chamado de Neneca. Já assistia quando o apitador Raphael Claus, que é claramente melhor que a média, deu uma caseirada e inventou um pênalti para o Corinthians, um suposto soco do goleiro Carlos Miguel, que saia para disputar a bola, em Gustavo Henrique, embora na sequência o goleiro tenha se enroscado com o jogador corintiano, muita reclamação palmeirense, eles que padecem de parca memória pois num lance muito menos evidente que esse foi marcado pênalti para o Palmeiras numa saída de Rafael contra o São Paulo no Morumbi, há uns dois anos.

Enquanto se gastavam infindáveis minutos discutindo se foi pênalti ou não, Andreas Pereira arrebentou o local ao lado da marca da cal, onde fatalmente terminaria o pé de apoio do cobrador canhoto corintiano, raspando insistentemente a grama até que era virasse lama, o que certamente seria impossível no piso plástico do Palestra Itália. Vencidas as alegações finais, as réplicas, as tréplicas, os protestos e os recursos, o árbitro conseguiu desvencilhar-se do bolo de jogadores, determinou a Memphis que cobrasse o pênalti, que correu para a bola, escorregou no ardil do palmeirense e chutou a bola muito longe, certamente uma das piores cobranças da história. Como os corinthianos gostam de dar nome aos Dérbis, esse possivelmente será lembrado como o “Dérbi do escorregão”.

Há mais de dez anos no estado de São Paulo, os clássicos têm sido meio assim, caso nada de muito extraordinário aconteça, é até possível que o jogo transcorra com alguma normalidade. Todavia, qualquer mísero atrito pode ser a faísca em cima da montanha de pólvora, incontrolável e bélico, onde vale tudo para vencer, menos o respeito ao jogo. Especialmente nos Dérbis em Itaquera isso é mais acentuado, notadamente depois do “Dérbi da cabeça de porco”. O pênalti mandrake e a esperteza de Andreas reavivaram todos os demônios dos dois lados, quando a rivalidade transforma-se em inimizade, em batalha, em uma guerra santa(?) onde tudo é justificável.

E os grandes responsáveis por isso são as autoridades que anabolizam a rivalidade para que se torne hostilidade, insuflando medo para vender soluções supostamente mais eficientes, falo, lógico, da Polícia Militar e do Ministério Público de São Paulo, artífices da torcida única, essa aberração que não evita a violência fora do estádio, como se viu recentemente na emboscada assassina feita por integrantes da Mancha Verde contra outros da cruzeirense Máfia Azul, e ainda transmuta rivalidade em ódio. Hoje, São Paulo é o túmulo do futebol, e as autoridades de segurança escolheram o caminho que exemplifica o modelo de segurança pública do atual governo estadual: o jeito mais fácil de proteger algo é acabar com ele, assim não há nada para proteger, do mesmo modo como é mais fácil matar o jovem preto e periférico é mais fácil acabar com o futebol, essa lógica fascista e autoritária da necropolítica que encontra guarida nos gabinetes bolsonaristas. Sem conviver com o outro, não reconheço o outro, e é muito fácil fantasiá-lo de inimigo, é o modus operandi da extrema direita mundo afora. Quando eu convivo com o outro, quando convivo com outro torcedor, quando ele também está onde estou, nos mesmos templos embora venerando outros santos, eu me vejo no outro, eu vejo suas misérias e suas alegrias, eu sou um espelho do outro, das minhas misérias e alegrias, há sempre outro jogo num próximo turno, num próximo campeonato, em algum momento da existência do futebol. O jogo só é tão belo porque jogamos juntos, porque jogam todos, precisamos do outro para jogar, assim como ele precisa de nós, e no momento mais lúdico de nossas vidas tudo de que menos precisamos é de inimigos para pelear.

O jogo merece, antes de tudo, reverência por quem o joga. Uma das regras mais absurdas é não poder tirar a camisa para comemorar um gol, regra comercial que quer controlar o êxtase do gozo e do esforço para privilegiar os interesses dos patrocinadores. Mas o que se viu não foram atos de resistência, foram apenas artifícios dos mesmos fraudadores e especuladores brancos que cometem seus impunes crimes de colarinho branco e que alegam com sucesso que foram apenas pequenos desvios indispensáveis ao sucesso empresarial. A história da malandragem no futebol é negra, é Pelé, é Garrincha, é Ronaldinho Gaúcho, é a folha seca de Didi, o biquinho do Romário, os arranques de Ronaldo Fenômeno, é o elástico de Rivellino e a carretilha de Neymar, é com a bola, fazendo com ela o que só os craques sabem fazer, tornando real a fantasia que vive em todos nós, e isso é tudo que se faz e que se admite que se faça para ganhar um jogo.

A partida, que passava na tv, seguia como farsa, eu enrabichando o olho para o notebook onde passava o Super Bowl. O futebol é a coisa mais importante das coisas desimportantes. Dito isso, não tive dúvida de assistir ao vivo com meus filhos à apresentação de Bad Bunny, que foi pra tv e o Dérbi rebaixado para o notebook, nesse momento pérfido de erosão dos valores democráticos e dos afetos humanos, uma mensagem de amor, esperança e resistência era o que havia de mais importante.

Enquanto Bad Bunny desafiava Trump e os extremistas e celebrava a vida e o amor numa das mais potentes apresentações jamais vistas nessa escala de audiência mundial ao vivo, o Dérbi seguia esvaziando-se, Abel Ferreira e seus chiliques mal-educados foram expulsos, gol do Palmeiras num rebote após falha de Hugo Souza, objetos sendo arremessados em direção do artilheiro da noite Flaco López, no território de exceção de Itaquera criado pela regra da torcida única palmeirenses e são-paulinos não podem comemorar seus gols, Flaco chuta a bandeirinha de escanteio com o escudo do Corinthians, jogadores reservas partem para cima dele, aquela cena ridícula de marmanjos se empurrando mutuamente, quase um ritual, como se a qualquer momento alguém de fato fosse bater em alguém, valentões querendo passar-se por valentes, Luighi enfia o pé na bola que acerta em cheio no rosto de um torcedor, até Dorival Júnior levou seu amarelo, enquanto todos ali brincavam de odiar, o que se via era que odiavam brincar.

No futebol, como na vida, nem tudo vale, e certamente o que vem do ódio não vale. E a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor. “Mientras uno está vivo/ Uno debe amar lo más que pueda”.