09.03.26 – Demissão de Crespo

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“Life is a waterfall/ We're one in the river and one again after the fall”. Era uma clássica segunda-feira, daquelas que nos fazem odiar a segunda-feira, a volta para a rotina sem uma bela vitória no fim de semana. Ainda pior, muita gente sendo campeã no sábado e no domingo, lógico que Flamengo e Palmeiras, também Bahia, Grêmio, Fortaleza, Sport e o Cruzeiro numa lamentável pancadaria contra o Galo, justo na partida que retomava o Mineirão dividido meio a meio entre as torcidas.

Vida que segue, logo os estaduais seriam esquecidos e temos o jogo da talvez liderança contra a Chapecoense no Canindé na quinta depois de três dias de folga e uma semana de treinos enquanto o Palmeiras, que teve que suar para vencer duas vezes o Novorizontino, terá que visitar São Januário na reestreia de Renato Gaúcho no Vasco.

Nem ia acompanhar o noticiário esportivo da segunda, não tinha nada para mim ali, e eis que começam a pipocar as mensagens no celular anunciando, estupefatas, a demissão de Hernán Crespo. Tentaram várias justificativas, que não teria o apoio dos jogadores, que teria escalado mal contra o Palmeiras na semi do Paulista (um fato), que não poderia ter dado uma entrevista que ainda nem foi ao ar. Crespo, o melhor centroavante argentino desde Batistuta, o homem que nos tirou da fila na pandemia no Paulista 2021, o técnico que criou um jeito para Lucas, Calleri e Luciano jogarem juntos e que inventou Marcos Antônio como potencial convocável para a Copa, que perdeu uma semifinal contra o favorito Palmeiras com um grave erro (mais um) de arbitragem, que liderava o Brasileiro junto com o mesmo Palmeiras quando muitos analistas apostaram, no início do ano, que o Tricolor brigaria para não cair, no Paulista e no Brasileirão, aquele que, ainda que estejamos calejados e ressabiados, nos devolveu a alegria secreta e discreta de ver o time jogar bem, que nos fez acreditar que algo mágico poderia acontecer nesse ano.

Como há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina nossa vã filosofia, quanto mais justificativas os dirigentes são-paulinos derem, tanto mais serão vazias, rasas e injustificáveis. Do mesmo modo que a trupe de Casares empenhou-se ano passado para que o time não classificasse para a pré-Libertadores porque não haveria Morumbi para jogar, já que sediaria shows do AC/DC exatamente na mesma data da potencial partida, os novos velhos diretores resolveram agora demitir Crespo antes que assumíssemos a liderança e as coisas se tornassem insustentáveis, tornando impossível derrubá-lo.

O rio sempre corre para o mar, sinuoso, percorre distâncias continentais, supera quaisquer obstáculos, supre civilizações, as vezes é difícil entender seu curso, até chegar a seu destino. Nós, estamos perdidos, sem conhecer nosso caminho, sem saber qual será nosso destino.

Hoje, parecemos mais uma montanha-russa, cujo carrinho sobe, desce, faz curvas, loopings, acelera, desacelera, causa vertigens e emoções. Mas depois de chegar ao topo no começo do trajeto, mesmo que tenha muitos altos e baixos, nunca mais ultrapassa o ápice que tinha alcançado. O castelo de areia das nossas ilusões para esta temporada, imaginava eu, duraria algo mais.

O novo técnico é Roger Machado. Já simpatizava com ele nos tempos de lateral esquerda e capitão do Grêmio, mas ganhou minha profunda admiração após se tornar técnico por sua postura política clara e vocal, especialmente contra o racismo no futebol. Como treinador, ainda lhe falta um título grande.

É compreensível a irritação e o desânimo da torcida com a demissão de Crespo, mas o alvo dessa frustração não pode ser Roger. Rei morto, rei posto, que venha o título que lhe falta, que venha o título que sentimos falta.

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