11.01.2026 – Mirassol 3 x 0 São Paulo

Campeonato Paulista, 11.01.2026, Maião

5 min read

A etimologia de esperar e de esperança remete a uma mesma origem comum. Quem espera é quem tem esperança, e embora nem fizesse tanto tempo assim que o São Paulo não jogava, já esperava a estreia no Paulistão, não só por ansiosamente aguardar o jogo mas por acreditar na vitória.

O torcedor é assim, sempre espera, sempre acredita que seu time pode vencer o próximo jogo, seja quem for o adversário, não importando as circunstâncias e condições, no frio ou no sol de 40° C, na altitude, com o 10 machucado e a zaga suspensa, com o goleiro reserva frangueiro, contra o Barcelona de Ilhéus, de Guaiaquil ou de Barcelona mesmo. Ainda que racionalmente não faça nenhum sentido acreditar em algo diferente de uma derrota, o futebol permite que a parábola de Davi e Golias seja diariamente recontada. E o torcedor, esse indivíduo de sentimentos tão complexos quanto ambíguos, ainda que socialmente saiba comportar-se e até verbalize que seu time não tem chance, que o adversário realmente é muito melhor, que o empate seria ótimo, que já estaria feliz em não sofrer outra goleada, no seu âmago, no mais profundo recôndito do seu ser, tem a absoluta certeza de que, nesse próximo jogo, seu time vai vencer. O torcedor espera.

O último jogo a que eu havia assistido no estádio foi o famigerado Choque-Rei do Ramon Abate Abel, no começo de outubro. Não consegui ir ao jogo contra o Bahia e preferi não descer a serra para as partidas da excursão praiana do Casares. Esperava voltar para a arquibancada. Arrastei meu filho e passamos uma bela tarde de domingo de verão dentro do carro atravessando o estado pela Washington Luiz. Esperávamos.

Chegando em Mirassol, foi bonito ver como a cidade e a região abraçaram o time, que fez por merecer o reconhecimento. Os setores reservados para a torcida da casa estavam praticamente lotados, e a grande maioria dos torcedores vestiam camisas do clube, com predominância da versão que replica o uniforme da seleção de 70 e de uma bela camiseta bege com um escudo antigo e o atual sobrepostos, além, claro, da horrível camisa de jogo amarela.

Boa parte da arquibancada dos visitantes estava vazia. Parece que não eram muitos, afinal, que esperavam. Não sou dado a superstições de nenhum gênero, embora abra singelas exceções e com bastante parcimônia para as futebolísticas, mas o vazio na curva do escanteio direito me pareceu um presságio.

Começa o jogo e fica claro que só nos restava esperar. Não é que o Mirassol jogasse bem como no ano passado ou que dominasse a partida. Era o São Paulo que não tinha nada, não tinha jogadas, não tinha vontade, não tinha atenção, não tinha concentração, não tinha disposição. Rapidamente, o Mirassol marca dois gols, aos 7’ num chute meio aleatório que rebate na trave esquerda de Rafael e volta nos pés de Lucas Mugni que não erraria nem se quisesse e aos 20’, em uma jogada sem grande perigo pela ponta que, depois de um cruzamento rasteiro facilmente cortável, Alan Franco desvia para o gol, sem chances para o goleiro.

O São Paulo era a representação do caos que o clube vive. Nenhum time suporta esse caos. Bom, o Corinthians não só suporta como se alimenta do caos, é um quê de filosofia chinesa, um yin e yang, o caos administrativo e financeiro com a ordem do time campeão paulista e do Brasil no ano passado, o caos do quase rebaixamento para a ordem de nove vitórias consecutivas e vaga na Libertadores no ano anterior, como se a oposição entre caos e ordem, complementares e mutuamente dependentes, fosse o equilíbrio que ilumina o time.

Em qualquer outro clube, não é a filosofia chinesa que orienta o caos, mas a física. A bagunça administrativa, as dívidas bilionárias, as falcatruas, os casos de polícia, vai corroendo e derretendo o clube, e esse chorume fétido e pegajoso vai escorrendo no time e, como se fosse entropia, tudo vai se transformando em um só lamaçal de podridão. Embora o ego do Casares seja maior que o Morumbi e ele seja o principal responsável por essa tragédia vivida pelo clube, a verdade é que a erosão são-paulina começou há uns quinze anos, quando Juvenal Juvêncio, que iniciara como um excelente presidente, deu um golpe para mudar o estatuto do clube e lhe garantir um terceiro mandato. Depois dele, Aidar, Leco e Casares, sempre com a dívida se multiplicando, quase sempre com times muito ruins, com inúmeras denúncias de escândalos e volta e meia frequentando o noticiário policial. Quando se liberta o gênio de sua lâmpada, nesse caso um djinn bastante diabólico, não é mais possível voltá-lo para dentro. Aconteceu no São Paulo, aconteceu no Brasil, mais ou menos na mesma época, o lava-jatismo, o golpe em Dilma, a eleição e governo Bolsonaro, a tentativa de mais um golpe e a imensa força que se faz para anistiá-lo.

Quanto ao jogo, continuou ruim, o apoio inicial da torcida transformou-se em protesto contra Casares até minguar, à medida que o jogo seguia sua via crucis e o nosso já sepulcral silêncio, exceto por uns poucos xingamentos isolados mais de desabafo que de ofensa, foi substituído por um coro tímido e jocoso de “Fica Casares” que vinha da torcida mirassolense. Ainda deu tempo do péssimo árbitro Candançan expulsar Maik, que era um dos menos piores, e de Rafael frangar já perto dos 45 do segundo tempo. Para aqueles que estavam no sofá e já haviam desistido do jogo, não conseguiram fugir do caos e viram a reportagem do Fantástico sobre novas picaretagens na gestão Casares.

Em menos de três meses, duas lapadas de 3 x 0 em Mirassol.

A viagem de volta levou sete horas, mas foi a única oportunidade de ver o time fora de casa no Paulistão. Tendo que jogar fora de casa contra Palmeiras, Corinthians e Ponte Preta, todos sem torcida, jogando mal como está, o próximo jogo contra o bom São Bernardo, no Morumbi, já se torna crucial contra o rebaixamento.

Apesar de o sono parecer algo reservado apenas para os torcedores dos outros times, eu espero. Espero que vença o próximo jogo, espero que seja campeão, espero que Casares seja destituído na próxima sexta-feira, nossas feridas já são tantas, os rivais sendo campeões a toda hora, que não precisamos das que ele nos quer trazer.

E espero que não tenha anistia.