11.02.26 – São Paulo 2 x 0 Grêmio

Brasileirão, 11.02.2026, Morumbi

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O São Paulo só fez uma excelente partida no Paulista até agora, contra o Santos, embora no Brasileirão ambos os jogos anteriores foram bons, uma vitória contra o Flamengo, em casa e de virada, e um empate em Santos que merecia ser um triunfo.

Tenho a plena convicção de que se jogarmos como jogamos esses três jogos, seremos campeões. O ponto é que mesmo quando o time joga bem, o técnico Hernan Crespo muda-o para a partida seguinte, e até é compreensível pelo histórico de lesões dos últimos anos nos jogadores do Tricolor, embora as mudanças não sejam apenas de jogadores, mas também de esquema. De outro lado, os testes feitos contra Mirassol, São Bernardo e Portuguesa, duas derrotas e uma vitória, serviram apenas para identificar o que não pode ser feito.

A escalação antes da partida contra o Grêmio jamais permitiria antever o massacre que viria. Com apenas dois zagueiros e sem Arboleda, a defesa provavelmente sofreria, já que os jogos defensivamente sólidos de Crespo sempre foram com três zagueiros. Na frente, a escalação de Lucas, Luciano e Calleri poderia ser o céu ou o inferno, três bons jogadores que poderiam decidir a partida e que também poderiam enfraquecer a defesa, expondo-a a contra-ataques. O ponto de equilíbrio, ainda não sabíamos, seria o trio do meio, Marcos Antônio, Danielzinho e Bobadilla, que têm jogado muito bem e que incrivelmente dominariam o time do Grêmio mesmo sem a segurança dos três zagueiros, justamente o setor vulnerável nas experiências pretéritas com poucos zagueiros e muitos atacantes.

A única explicação para o que se viu é que o técnico gremista Luís Castro em nenhum momento cogitou que o São Paulo fizesse qualquer coisa que não fosse escalar três zagueiros. O desequilíbrio tático foi imenso, parecia sempre que havia um jogador são-paulino sobrando e desde o início dominamos completamente o jogo frente a um apático e desinteressado Grêmio, normalmente freguês no Morumbi já se vão uns bons anos, que perdia em tudo, na velocidade, na técnica, na tática, na estratégia e principalmente na força e na intensidade. O amasso foi tamanho que não houve um único ataque gaúcho digno de nota.

Parecia muito a partida contra o Santos no Morumbi há dez dias, o São Paulo rodava a bola, todos participavam da construção ofensiva, ia encurralando o Grêmio e mesmo quando perdia a pelota, recuperava-a rapidamente, Sabino jantando o isolado Carlos Vinícius, os dois pontas Tetê e Amuzu não impediam as estupendas atuações de nossos laterais Enzo Díaz e Lucas Ramon, que estrava como titular, posição que deve manter apesar do ótimo início de temporada de Maik, Edenílson nem ajudava o ataque nem voltava para a defesa, Arthur e Noriega não eram páreos para a dinâmica movimentação do trio meio-campista Bobadilla, Marcos Antônio e Danielzinho, nenhum um fidedigno volante, rodavam as posições como num carrossel que foi atordoando a perdida defesa gaúcho que tentava jogar mais alta, mais longe de sua própria área, abrindo verdadeiros vácuos para onde eram sugados Calleri, Luciano e Lucas e os brilhantes lançamentos dos meio-campistas.

O gol viria, era daqueles que amadurecem, os defensores João Pedro e Wagner Leonardo já pareciam cansados na metade do primeiro tempo quando Marcos Antônio, que ia distribuindo tapas de biquinho na bola nas costas da defesa acertou a cabeça de Danielzinho, a bola pegou nele e virava sem querer um chapéu no goleiro Weverton, que, sem alternativa, empurra-o, pênalti. Assombrados que somos por três bruxas assim como Macbeth, vem a primeira da noite, a falta de um batedor de pênaltis, impressionante a quantidade de cobranças que desperdiçamos desde que Reinaldo saiu, Lucas dá uma paradinha, Weverton não cai na dele e não se mexe, um chute que queria ser forte mas não foi o bastante, um chute que queria ser no canto direito do goleiro mas não foi o bastante, Weverton resvala na bola e quando parecia que defenderia, ela entra bem rente à trave, 1x0.

A segunda bruxa, a incapacidade de matar jogos ganhos, também logo apareceu, não na forma usual de recuar-se na defesa após abrir o placar, o que ainda não havia acontecido no Brasileirão nem em três dos últimos quatro jogos de série invicta, mas empilhando e perdendo gols em sequência contra um Grêmio que ruía a cada novo ataque paulista, tanto que substituiu Edenílson pelo veterano William ainda no primeiro tempo, 1x0 era pouco para levar para o segundo tempo, sempre há chance de um time melhorar. Calleri fez um golaço, após outro precioso lançamento de Marcos Antônio, impedido por pouco, depois perdeu outro ao finalizar quase na pequena área um cruzamento rasteiro de Lucas, Enzo acertou um petardo de trivela no ângulo que me fez pular da cadeira, o grito de gol sufocado pela reação frustrada do nosso lateral, só aí eu entendi que a bola não tinha entrado, Luciano também perdeu o seu, daqueles que normalmente não perde, após Calleri recuperar uma bola bisonhamente dominada por Wagner Leonardo, e o primeiro tempo, para a sorte do Grêmio, acabou apenas 1x0.

A terceira bruxa foi a que mais me assustou: aos 34’, Bobadilla, lesionado, é substituído por Pablo Maia, o São Paulo perdeu aquela sua força centrípeta de carrossel, embora o volante, agora fixo, tenha feito uma partida correta, o que permitiu que Danielzinho e Marcos Antônio continuassem brilhando.

Já no limiar do primeiro tempo, uns 44’, o lance casual que desvenda o que aconteceria até o final, Calleri vem defender uma bola na bandeirinha esquerda de escanteio na nossa defesa, com esse ímpeto contra o sonâmbulo Grêmio os três pontos estavam garantidos.

Se no primeiro tempo o Tricolor Paulista parecia ter um jogador a mais, logo no primeiro lance do segundo passou a parecer que eram dois, Wagner Leonardo, que já estava amarelado, dá uma gravata em Calleri num lance no meio de campo, segundo amarelo e expulsão, até dava a impressão de que o zagueiro gremista queria encerrar logo o próprio sofrimento.

Os gols continuavam a fugir, Enzo erra uma cabeçada de peixinho depois de ótimo cruzamento de Lucas Ramon, Luciano ainda tenta salvar e Danielzinho chega a pôr a bola para dentro, mas ela já tinha saído pela linha de fundo.

Aos 13’, um lance mágico, que poderia ser a sinopse dos nossos sonhos para esta temporada, Lucas Ramon puxa um contra-ataque pela lateral direita da defesa, toca para Lucas que lança Luciano na ponta esquerda, no buraco que era as costas da zaga gaúcha, ele domina já dentro da área e quando o único zagueiro que ainda tentava manter alguma dignidade se aproxima, o camisa 10 dá um leve toque de canhota, com a parte de fora do pé, para Calleri, rompedor, fuzilar Weverton, 2x0, construção espetacular do nosso Trio Ternura e a partida parecia definida.

Aos 15’, pênalti em Luciano, só faltava ele para anotar seu tento, bate forte e mal, Weverton defende bem, a primeira bruxa aprontou afinal.

Continuamos enfileirando gols perdidos, Tapia mandou na trave embaixo das traves depois de um lindo passe de cabeça de Danielzinho que, minutos depois, disparou um canhonaço que quase entrou, não fosse um leve desvio na zaga, o Grêmio implorando pelo fim da partida, Calleri ainda teve uma chance de cabeça num escanteio, Ferreirinha desperdiçou um chute de curva de fora da área quando já estávamos nos acréscimos de 7 minutos, absolutamente desnecessários, apenas se a intenção do árbitro fosse que o São Paulo enfim fizesse o terceiro, claro estava que o Grêmio só queria voltar o mais rápido possível para Porto Alegre.

Que baile! Se no sábado a vitória veio a fórceps, hoje foi com a melhor apresentação de um time brasileiro neste ano, foi um jogo que tranquilamente poderia ter sido 6x0, um verdadeiro escrete. E, nesse turbilhão de informações, onde é possível ver tudo e acompanhar tudo, ver os melhores jogos de todos os tempos da última semana, quando há sempre algo ainda mais fabuloso e extraordinário na esquina, esquecemos de olhar para o céu e ver a beleza simples da lua e das estrelas, em São Paulo nem conseguimos mais ver as estrelas, as coisas singelas têm seu valor e também despertam afetos e podem ser maravilhosas nessa sua simplicidade, foi assim essa noite memorável. É lógico que espero que seja o início da caminhada para o título, já são duas noites espetaculares em 3 rodadas, mais umas trinta assim e seremos campeões, mas a beleza desse momento vale por si, independentemente da taça, independentemente de por qual torneio se joga, nós sempre torcemos para ganhar a Libertadores, e sempre torcemos por noites de quarta-feira como essa.

Acreditar nas profecias das bruxas foi a ruína de Macbeth, que se achou invencível. Hoje nós as vencemos, que elas não sejam também a nossa ruína.