14.12.25 – Semifinais da Copa do Brasil

Corinthians 1 (5) x 2 (4) Cruzeiro, Fluminense 1 (3) x 0 (4) Vasco, Copa do Brasil, 14.12.2025, Itaquera e Maracanã

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Pênaltis. As duas semifinais da Copa do Brasil foram decididas nos pênaltis, após uma vitória por um gol de diferença para cada um dos quatro times em cada uma das quatro partidas.

O futebol é o esporte que mais se aproxima do lúdico, talvez por isso a paixão que desperte em bilhões de pessoas, mesmo sendo praticado contraintuitivamente com os pés, quando a imensa maioria dos esportes aproveita dos bilhões de anos de evolução para desenvolver nossas habilidades motoras com as mãos. Ao ser o jogo que mais admite empates, enquanto quase todos os demais esportes o evitam a qualquer custo, o futebol permite inúmeras e memoráveis partidas sem vencedores, o que o aproxima da ideia de uma prática lúdica, cujo objetivo não é vencer o outro mas apenas se divertir.

Como parece claro, em disputas competitivas, partidas empatadas não servem para atribuir o título de campeão a alguém, que precisa vencê-lo.

Inventaram, então, partidas de desempate para definir o vitorioso, sistema adotado em Copa do Mundo, Mundiais de Clubes, Libertadores e até há pouco na Copa da Inglaterra, com um evidente problema: o jogo-desempate pode acabar, vejam só, empatado. Se um jogo extra não basta para resolver o problema de sucessivos empates, não foi a adoção de uma prorrogação que o solucionou.

E então vieram os pênaltis. E o que era para ser a definição competitiva da regra do empate que deixa o futebol parecido com o lúdico vem, ludicamente, reduzir partidas, disputas de mata-matas e campeonatos inteiros, a uma mera disputa de chutes com a bola parada na marca da cal. Uma contenda na qual a tática, a estratégia, a técnica, o preparo físico, as condições do tempo, o gramado, a bola, a arbitragem, a torcida, ficam de fora enquanto os dados rolam, alea jacta est. Muitos dirão que é exatamente o contrário, e que todos esses fatores e elementos do jogo se condensam naquele exato momento em que o jogador parte para a bola, o carrasco com mais medo do goleiro que não se importa em ser impiedosamente martirizado a cada novo chute, sabe que a santificação está a apenas 9,15m, quando rebater a bola daquele mais incauto. O desempate nos pênaltis como o amálgama do jogo.

Surpreendentemente, como só o futebol permite, havia um time claramente melhor e outro claramente pior em cada uma das semifinais, e que não conseguiram sobressair-se sobre seus adversários após dois jogos inteiros. Bola na marca da cal.

Para muitos, se Vasco e Corinthians levassem a definição da classificação para os pênaltis, já seria uma vitória, daquelas de Pirro, como a de Claúdio Coutinho em 1978, já que vitória mesmo, que seria a classificação para a final, só ao vencer os pênaltis. Perder nos pênaltis nunca é vitória, é derrota, é exatamente para isso que servem os pênaltis, não sou daqueles que ficam menos chateados porque o Botafogo foi campeão da Libertadores o ano passado e só nos venceu nos pênaltis, ao contrário, isso me deixa com uma imensa melancolia de que claramente perdemos a chance de ganhar a quarta Copa, se bobeamos nos pênaltis contra os futuros campeões é porque ganharíamos o título no lugar deles.

Se o fato de não serem favoritos poderia trazer algum alento, algo que tocasse em vascaínos e corintianos e que lhes desse um acréscimo de confiança, isso logo ruiu na primeira cobrança de cada um, quando seus centroavantes Vegetti e Yuri Alberto perderam seus tiros. Não há nada mais lamentável que isso, nesse momento em que tudo se resume àquela oportunidade singular, quando até os planetas param para assistir, isso certamente Kepler não previu, a tão cobiçada final para times que jogaram péssimos Campeonatos Brasileiros a pouco mais de 9 m de distância, desperdiçada por aqueles jogadores que estão ali simplesmente para fazer gols, nada mais, não precisam marcar, cobrar lateral, escanteio, buscar a bola fora do campo, amarrar a chuteira do goleiro, ouvir instrução do técnico, só precisam fazer o gol, e da maneira mais fácil que existe, impossível que um cidadão desses ganhe tanto dinheiro pra isso, muitos certamente ralharam.

Mas o futebol, por mais lúdica que possam parecer as cobranças de pênaltis, ainda assim é um jogo, só acaba quando termina, um chavão que não engloba as goleadas, mas que exprime o ideal de que tudo pode acontecer até que aconteça, inclusive nada. Os caídos levantaram-se e Hugo Souza e Léo Jardim pegam os pênaltis de Wallace e John Kennedy, estes que serão esquecidos, e também os de Gabigol e Cannobio, os que serão lembrados porque também desses dois jogadores é que também se esperava que fizessem seus gols, com o agravante da displicência, do descomprometimento e da ruindade que pode qualificar ambas as cobranças (e eu fui daqueles que ralhei como Gabigol ganha milhões para chutar um pênalti daquele jeito).

E chega-se ao paradoxo que, embora lúdica, nada leva a tanta catarse como a definição por pênaltis.

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Ganhamos nossos dois primeiros Brasileiros nos pênaltis, em 1977 e 1986, nossa primeira Libertadores em 1992 e dezenas de outras disputas. Dolorida, dolorida mesmo, foi a derrota de 1994 com o abismo que Palhinha cavou com seus pés, embora não merecesse ser execrado pela torcida depois de tudo que fez por nós. Torci por Fluminense e Cruzeiro, mais por obrigação que por vocação, como seria o normal. Mas foi a primeira vez na vida que me vejo eliminado da Libertadores nos pênaltis sem ter dado nenhum chute.