15.02.26 – Ponte Preta 1 x 2 São Paulo
Campeonato Paulista, 14.02.2026, Moisés Lucarelli
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Última rodada da fase de classificação do Campeonato Paulista, todos os jogos iniciando primeiros e segundos tempos no mesmo horário, aquela loucura de mudança da tabela e dos classificados a cada gol, a Ponte Preta já estava rebaixada e, logo iniciada a rodada, também estava o Velo Clube, o Santos abriu o placar no início do jogo, semeando o que viria a ser a mais retumbante goleada do torneio, 6x0, o time de Rio Claro deixa a primeira divisão pela porta dos fundos.
A outro rebaixada, que já estava degolada desde a rodada anterior, a Ponte Preta, um dos times mais importantes do país, um dos primeiros clubes de futebol do Brasil e pioneiro na inclusão de jogadores negros em sua equipe, um bastião da luta antirracista no futebol brasileiro, uma torcida apaixonada que não lhe abandonou mesmo diante do mergulho no precipício que o time fez esse ano, pouco depois de ter ascendido para a Série B nacional no final do ano passado, literalmente não conseguiu montar um time, não conseguiram inscrever jogadores, outros saíram por falta de pagamento, justo quando parecia ter retomado o rumo, um novo baque, parece que todo dia é dia de perder. É triste ver dois grandes clubes como Ponte Preta e Guarani tropeçando nas tabelas e nas divisões, duas equipes com história, tradição, os maiores do interior paulista, e com verdadeiros torcedores, não os simpatizantes do Mirassol, do Red Bull, do Novorizontino, que também torcem para algum dos grandes da capital, os dos times de Campinas são torcedores reais, cuja sina, hoje, é sofrer e esperar.
Entraram em campo pela Macaca um misto de veteranos que claramente não conseguem mais jogar no nível da primeira divisão e moleques sub-alguma coisa que ainda não estão maduros para o profissional, um time lastimável que fatalmente cairia para a terceira divisão paulista caso estivesse jogando a A2, e que, ainda assim, jogou todo o muito pouco que podia, apoiado pelos fanáticos que nunca a largaram, que nunca a largarão. O setor de visitantes, lógico, estava vazio, patrocínio da incompetência da PM e do MP, os assassinos do futebol paulista, certamente seria um jogo a que eu iria, eu que visitei o Moisés Lucarelli ano passado para a semi da Copa do Brasil feminina entre São Paulo e Palmeiras.
A partida foi um tanto estranha, o São Paulo sabia que ia vencer, a Ponte sabia que ia perder, era um desnível tão grande entre as duas equipes que aos 3’ Sabino já tinha acertado uma bomba num sem-pulo magnífico de dentro da área, girando o corpo, a bola estourou no travessão após um leve desvio do goleiro. A Macaca não conseguia sair de sua defesa e o São Paulo não sufocava os campineiros, tinha muita gente naquela ressaquinha de domingo de carnaval, guardando suas energias para a segunda e a terça-feira gorda, eu odeio jogo durante o carnaval, certas datas são sagradas e devem ser guardadas, do pouco que vi dos outros jogos também Palmeiras e Corinthians padeceram da mesma letargia carnavalesca.
Aos 13’, Marcos Antônio recebe um passe elevado de Pablo Maia próximo à linha lateral direita da área pontepretana, dá um lençol para limpar a jogada e, com o capricho que lhe é peculiar, deixou Luciano na cara do gol, que bateu mascado para fora, mais preocupado em transformar suas jogadas em alegorias e adereços do que resolver logo a peleja.
Na chatíssima parada para hidratação, que foi usada como regra em todas as partidas do torneio, mesmo quando desnecessária, o Santos já liderava por 3x0, resolvendo o rebaixamento, e o São Paulo era o 9º, o primeiro fora das quartas.
A classificação temporária adversa não foi o bastante para apressar o Tricolor, que ainda levava o empate oxo em banho-maria e, aos 28’, após um cruzamento da esquerda, o jovem Juan, volante da Ponte, acertou um chute de dentro da área que passou perto da trave. Mesmo jogando com seus titulares, o São Paulo fazia força para se complicar, talvez exatamente neste jogo os reservas vencessem, já que suponho que estariam mais interessados em aproveitar a oportunidade de jogar como titulares em um jogo decisivo contra um adversário péssimo já rebaixado, embora as substituições do segundo tempo tenham aclarado porque o 11 principal tricolor pode bater qualquer time do lado de cá do Atlântico e seus reservas podem perder para qualquer um entre Manitoba e Ushuaia.
Aos 31’, Lucas Ramon (como são bons esses ex-jogadores do Mirassol, saudade do pênalti do Kingnaldo) lançou Luciano dentro da área que, ainda no ritmo de marchinha, chutou feio e sem perigo em cima do goleiro. Aos 36’, o Tricolor vai girando a bola de um lado a outro, rápido, toco y me voy, por cerca de um minuto até Marcos Antônio, sempre Marcos Antônio, já dentro da área enfiar Luciano na linha de fundo, um cruzamento rasteiro que se não foi bom também não foi ruim, longe para Calleri, Danielzinho ainda tentou carrinhar, sem sucesso.
Aos 38’, Lucas Ramon faz boa jogada pela direita, passa curto para Luciano e se lança à frente, o 10, no único momento em que ele e não sua fantasia brilhou, deixa o lateral-direito na cara do gol, belo chute no canto, sem chances para o arqueiro, 1x0.
Dois minutos depois, a zaga da Macaca se complica na troca de passes, Luciano intercepta livre no círculo central e parte em direção ao gol, poderia encobrir o goleiro, poderia driblá-lo, poderia chutar no canto, não sei como mas deveria fazer o gol, seu espírito zombeteiro carnavalesco, contudo, não deixou, devidamente mascarado para o baile de carnaval, deu um biquinho na bola, que não subiu o bastante e morreu mansa na mão do goleiro, sem nenhum perigo.
O gol e uma confusão qualquer protagonizada por Luciano pareceram o prenúncio do que viria a seguir, acuada, a Ponte, que até então não batia e jogava limpo, começou a chegar mais forte, e a iminência de uma nova lesão no escrete titular passava a ser real.
Findo o primeiro tempo, com a vitória parcial que era o bastante para classificá-lo para as quartas, e diante dos resultados das outras partidas, o Tricolor encararia um novo Choque-Rei, já que o Palmeiras perdia em casa pero no mucho em Barueri para o Guarani.
No começo do segundo tempo, Sabino, do campo de defesa, transforma o que parecia um chutão num lindo lançamento para Calleri, que domina no seu estilo tradicional já empurrando a bola para frente e quando o zagueiro chega no lance tentando interceptar, o centroavante simplesmente finaliza no contrapé do goleiro, no canto direito, toca no Calleri que é gol, 2x0, sexto gol em dez jogos no ano, gols nos últimos quatro jogos, se alguns sambavam com os dedinhos indicadores para cima, Calleri jogava como argentino, como sempre, jogava final de Copa do Mundo, e sua comemoração raivosa deixou claro que ele quer ser campeão de novo.
Eu ainda fazia anotações no caderninho do Malba que ganhei da minha filha, o célebre mapa de Torres García na capa, a América do Sul com o sul apontado para cima, anotações que faço para estas crônicas, quando apareceu um cruzamento da ponta direita da Ponte para o meio da área, a bola sobra para o meia Bryan Borges enfiar o pé como se não houvesse amanhã, a bola poderia bater em qualquer jogador que estava na frente, poderia ser defendida por Rafael, mas entrou, o futebol tem isso, até o pior time do mundo pode fazer gol no melhor time do mundo, um passe errado, uma engrossada, um drible perfeito, um pombo sem asa, um chute extraordinário, a jogada de uma vida e até mesmo Oscar conseguiu fazer um gol na Alemanha campeã mundial na semifinal de 2014, e é por isso que não existe jogo ganho com um gol de vantagem. Aplausos à Ponte e à sua torcida, que nunca largaram o jogo, o time é ruim, os jogadores são ruins, a pessoa pode ser maldosa porque quer, mas ninguém é ruim de propósito, “Nem todo ruim é do mal”, como já disse Zé Ramalho, e se eles não são o que a Ponte merecia, ao menos não desonraram a célebre camisa de faixa transversal, linda como as do River Plate e do Vasco.
Aos 20’ do segundo tempo, boa trama no ataque são-paulino, Lucas perde o gol, recupera o rebote, a bola roda de novo, Marcos Antônio chuta mal para fora, fraco, que poderia ter sido desviada por Luciano, que estava com a cabeça não sei se no Anhembi ou na Sapucaí, outra chance perdida. Calleri ainda teve a chance de fazer mais um aos 30’, num escanteio batido por Danielzinho.
Nos acréscimos do seu jogo, o Capivariano venceu o Botafogo em Ribeirão Preto, e o que se avizinhava como uma tragédia no início do certame, com algum grande rebaixado e com ao menos dois grandes fora da segunda fase, sobretudo em razão da péssima tabela criada onde os melhores jogam mais vezes entre si enquanto os piores jogam mais vezes uns com os outros, transmutou-se no resultado perfeito para a Federação Paulista, a fortuna sorriu-lhe sorrateira e diabólica, viu suas quatro principais equipes classificadas para o mata-mata, cada uma em um confronto diferente, com a chance de ter todas elas se matando nas semifinais, o São Paulo pega o Red Bull, Corinthians x Portuguesa, Santos vista o Novorizontino e o Palmeiras recebe o Capivariano, é preciso ter sorte na vida, sem sorte não se chupa nem um chicabom, embora impressione como aqueles no poder tem muito mais sorte que os outros.
