18.01.26 – Majestoso
Corinthians 1 x 1 São Paulo, Campeonato Paulista, 18.01.26, Neo Química Arena
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Quando um jogo tem um nome, é um jogo diferente, fora do comum, não importa onde estejam os times, seja nas tabelas ou nas divisões, não importa onde joguem, não importa nem se é campeonato ou se amistoso. Aliás, esse tipo de jogo não se joga amistoso. De um ponto de vista estritamente matemático, por valer os mesmos três pontos de qualquer outra partida, logicamente não faz sentido atribuir a esses jogos maior importância. O futebol e seu torcedor, longes de quaisquer inteligências artificiais, não de guiam por lógica nem por matemática, muitas vezes a satisfação, o júbilo, o momento único quando se transcende ao nirvana, não vem do título ou da posição na classificação, mas de ganhar um único jogo no ano inteiro, aquele jogo.
O Majestoso é um desses jogos. Vilipendiado pela incompetência da Polícia Militar e do Ministério Público de São Paulo, assim como os demais clássicos paulistas e o Derby campineiro, por não se permitir a presença da torcida adversária, e alimentando no seio do ódio a transformação de rivais em inimigos, tem se caracterizado, mais do que qualquer outro clássico paulista, pelo domínio completo do São Paulo no Morumbi e do Corinthians em Itaquera. Não só os visitantes não conseguem vencer como normalmente perdem jogando mal, sendo dominados em campo, muito pela uníssona arquibancada, sempre um fator decisivo nessas partidas.
O Majestoso de hoje, contudo, foi preguiçoso, menos por culpa dos times e da torcida alvinegra e mais pelo crime que é colocar um jogo como esse para ser jogado em meados de janeiro, quando os times mal tiveram tempo de voltar das férias e os atletas todos estão visivelmente longe de suas melhores formas técnicas e físicas.
No primeiro tempo, o Corinthians exercia uma certa pressão, sem criar grandes jogadas, mas encontrando lances perigosos a partir de falhas da defesa tricolor, quem assiste pela tevê e nunca vivenciou um Majestoso no estádio não entende a diferença que faz a torcida nesses jogos, os jogadores rivais sequer conseguem se comunicar, e esta é uma das hipóteses porque tantos lances bisonhos são cometidos por ambos os visitantes. No pior deles, Arboleda espanou uma bola para cima que não precisaria ser cortada, pois seria facilmente defendida por Rafael, não sei se foi efetivamente uma canelada embora ao menos metaforicamente tenha sido, e acabou fazendo um cruzamento para Yuri Alberto que cabeceou para fora com o gol livre. Não era aquele sufoco que já vi tantas vezes em Itaquera e que a qualquer momento se transformaria em gol do Corinthians, seja por uma grande jogada do ataque, um bate-rebate na área ou o infortúnio quase juvenil de jogadores experientes em erros grotescos, pouco importa, a bola sempre entrava.
Rafael me parecia mais inseguro que o normal, rebatendo mal muitas bolas que normalmente defende sem maiores riscos, Maik era a boa surpresa, provavelmente é o novo titular, Danielzinho e Marcos Antônio são os dois garantidos do meio-campo, Tapia hoje é a melhor opção para formar o ataque e o Luciano é o Luciano. Arboleda, Franco e Bobadilla eram inseguros e Wendell, jogando para uma nota 5,5 ou 6, fazia uma de suas melhores partidas no São Paulo, ele que voltou ao Brasil imaginando que disputaria uma vaga na Seleção que vai para a Copa, mas que não consegue sequer ser titular nesse plantel abaixo da crítica.
Faltando uns dez minutos para o fim do primeiro tempo, o Tricolor conseguiu se sustentar no ataque com mais consistência e por mais tempo do que vinha conseguindo. Esse efêmero e temporário domínio territorial culminou, após um escanteio que o Corinthians não conseguiu afastar para longe da área, em uma troca de passes que foi rodando toda a intermediária desde a lateral direita, chegando em Marcos Antônio que abriu uma bola perfeita na ponta esquerda para a única vez que quem estava ali era Danielzinho e não Wendell, para que o novo titular aproveitasse para ensinar o experiente lateral-esquerdo como se cruza uma bola, perfeita, entre os zagueiros e na cabeça de Tapia, que cabeceou bem e forte, sem chance para Hugo Souza, um belo gol.
O silêncio nos Whatsapps tricolores era justificado pelo histórico e porque as feridas do passado nos ensinaram a só comemorar nesses jogos quando eles já acabaram. Ao fim do primeiro tempo, apenas uma mensagem, do meu filho, duas na verdade, “vc ta assistindo o jogo na hbo” “transmissão corinthiana”, não sei se foi incredulidade ou indignação, coitado, ele ainda não sabe como as coisas são ou, se já sabe, ainda se revolta.
Veio um segundo tempo diferente do que prometia. Que o São Paulo não ia jogar era óbvio, ao menos enquanto estivesse na frente, tentando um eventual segundo gol que todos sabíamos que nunca viria num contra-ataque ou numa bola vadia qualquer. O que impressionou, na verdade, foi a preguiça do Corinthians, que não teve grandes chances, não pressionou, não abafou o Tricolor, não respondeu ao empurrão que sua torcida dava e que, ao menos para quem estava no sofá, parecia que ia minguando enquanto o tempo passava, muito em razão da postura sonolenta dos times, ainda mais porque quem precisava correr era o Corinthians.
O São Paulo não chegou a ter uma chance clara para fazer o segundo, o Corinthians não fazia muito para empatar a partida, e lá pelos 40’ do segundo tempo, cometi o pecado venial de considerar a partida ganha, aquele momento em que se abre a tabela do campeonato no celular para conferir a posição do time, sim, eu sei que lá a gente sempre toma gol, sim, eu sei que o Corinthians nunca nos entrega uma partida em Itaquera, sim, eu sei que eles ainda iam achar um gol, sempre acham, não lembro um jogo lá em que eles não tenham achado um gol, mesmo quando é um golaço como o do Memphis na caneta no Sabino foi um gol achado, é o time que mais nos acha gols e para quem mais cedemos gols achados, sim, eu sabia de tudo isso, tinha plena ciência, era absolutamente imputável, não tenho nada a alegar em minha defesa, era só uma olhadinha na tabela, era o Corinthians mais preguiçoso em Itaquera que eu vi em toda minha vida, a gente ia ganhar, não fiz por mal.
45’ do segundo, o comentarista afirma, sem lastro no que estava acontecendo na partida, que Alan Franco fazia uma partida impecável e menos de três segundos depois ele erra um bote na entrada da área, a bola sobra dentro da área para Pedro Raul, quem diria, Pedro Raul, que toca para Breno Bidon acertar um belo chute, 1x1, empate, o gol achado que faltava. Para sorte do São Paulo e azar do Corinthians o gol aconteceu já quando o relógio terminava seu último giro, embora sempre houvesse o risco do quarto árbitro levantar a já tradicional placa de acréscimos “Até virar” tão conhecida lá em Itaquera, fosse dez minutos antes e teríamos certamente levado a virada.
Empate em 1x1, São Paulo não jogou mal, não jogou bem, idem o Corinthians, foi um jogo ruim de dois times claramente despreparados e que merecia ser jogado em outro momento, mas nunca um jogo chato, é um Majestoso.
Nos grupos de Whatsapp são-paulinos, o silêncio diz tudo.
