18.05.26 – Convocação da Seleção

Rio de Janeiro, 18.05.2026

4 min read

Nauseante evento este da convocação da Seleção para a Copa. Em vez do simples, a leitura da lista dos 26 jogadores seguidas de uma entrevista coletiva para que Ancelotti respondesse uma centena de perguntas sobre por que não convocou Neymar, preferiu-se uma espécie de espetáculo que, além do péssimo senso estético, mal ensaiado e mal executado, uma coisa mambembe que perderia para qualquer teatro realizado por crianças do ensino fundamental, com um samba de gente branca feito para uma plateia de endinheirados e influencers brancos, completamente desconectado da realidade que hoje exige eventos inclusivos e da história do nosso futebol, construída majoritariamente por pés negros (e que só ficou ainda mais deprimente com a suposta e rápida “homenagem” à Seleção feminina e com a participação relâmpago de uma apresentadora negra, numa tentativa tosca de justificar diversidade).

O evento demorou tanto que tive que sair antes que anunciada a escalação. Entrei no carro e liguei o rádio, e assim que cheguei na escola e minha filha embarcou, Ancelotti iniciou a leitura dos nomes. Mal nos cumprimentamos para podermos ouvi-los, interessante essa urgência de saber algo imediatamente que estaria a nosso completo e franco acesso quinze minutos depois quando chegássemos em casa, enfim, por mais que finjamos indignação ou desinteresse, é impossível ficar incólume à Seleção no Mundial.

A cada nome lido, eu me mascarava de caretas e emitia grunhidos, muitos de desaprovação, alguns de aprovação, a maioria de concordância. A efusiva comemoração da plateia branca pela convocação de Neymar (depois vi um vídeo em que a transmissão do evento corta quase imediatamente para Luciano Huck à frente da plateia assim que o famigerado nome é anunciado, o que já diz tudo) causou-me um profundo sentimento de impotência, para mim, parecia que perdíamos a Copa ali e que continuaremos a jogá-la apenas para perdê-la de novo, e, ao mesmo tempo, não fiquei surpreso, há esse movimento para mim inexplicável e sem uma cara definida de achar que Neymar deve ir de qualquer jeito para Copa, que não vi com Romário, Ronaldo ou Ronaldinho Gaúcho mesmo depois que já tinham erguido a Taça, todo esse clamor por alguém que poderia ter sido tudo e não foi nada.

Enfim concluída a convocação, antes de fazer qualquer comentário, perguntei para minha filha o que achou e ela, cirúrgica e sagaz, definiu com a mais absoluta clareza: “Uma bosta!”, e explicou: “Tem meio Flamengo, convocou Neymar e não tem meio-campo”. Sigo a relatora.

Chegamos em casa e perguntei para meu filho se gostou da convocação de Neymar. Ele estava exultante. Perguntei se comemorou e ele disse que gritou como se fosse gol, que as pessoas no prédio gritavam, que já parecia Copa do Mundo. E por mais que eu tenha certeza absoluta que Neymar não deveria ter sido convocado, só aí entendi.

A Copa da minha vida foi a dos meus 13 anos, a de 1994. Todos temos uma Copa da vida, por um motivo ou outro. A minha aconteceu para coroar os quatro anos que começaram na Copa da Itália de 1990, quando comecei a assistir a todos os jogos que passavam e me apaixonei pelo futebol, quando vi o São Paulo perder um Campeonato Brasileiro para o Corinthians e mesmo assim me reconhecer são-paulino, de ver meu time se tornar o melhor do mundo e o meu maior ídolo chegar na Copa com a camisa 10, a do Pelé. Vi todos os jogos possíveis daquela Copa e tive um sentimento ambíguo, ao mesmo tempo que torcia fervorosamente pela Seleção como só as crianças conseguem, tinha uma certa raiva por Parreira ter sacado Raí, torcia para que Zinho ou Mazinho fizessem algo errado, fossem substituídos por Raí e ele resolvesse a partida. Só depois, mais velho, tive a consciência de que os jogos daquela Copa foram ruins. Chorei copiosamente quando Baggio perdeu o penal definitivo, só chorei de novo assim com futebol quando perdemos a Libertadores daquele ano também nos pênaltis.

Neymar sempre foi o ídolo do meu filho. Não adianta nada do que eu já tenha tentado argumentar, ele continua a ser seu ídolo. Ele acabou de fazer 14 anos, quase a idade que eu tinha em 1994. Essa talvez seja a Copa da sua vida, ele já acompanha, já assiste e já entende de futebol, muito mais maduro do que na Copa de 2022, mas ainda com o sentimento pueril que só aqueles que não deixaram completamente a infância para trás tem, algo que ele não terá em 2030. Se essa for a Copa de sua vida, ele certamente não quer que seu ídolo não jogue. Na Copa de nossas vidas, queremos ganhá-la, mas queremos que quem as ganhem sejam nossos ídolos. Só depois, já adultos, é que entendemos que quase nunca ganhamos e que se isso acontece, ainda há grandes chances de não ser pelas mãos ou pelos pés de nossos ídolos, mas pelos de um herói ou vilão improvável. (Eu adorava o Baggio e sempre achei muito triste ter sido ele nosso vilão-herói).

Quanto à minha filha, não sei quando será a Copa da vida dela, mas provavelmente não será esta, a não ser, talvez, se o Brasil ganhe. Será?

Contato

Email

contato@daarquibancada.com

© 2026. All rights reserved.