21.01.26 – São Paulo 2 x 3 Portuguesa

Campeonato Paulista, 21.01.2026, Morumbi

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Chuva de novo em São Paulo e a volta para casa ficou para a estreia no Brasileirão contra o Flamengo.

Mandados de busca e apreensão sendo cumpridos ao longo da manhã contra diretores e apoiadores próximos da gestão Casares para investigar por que o Morumbi virou o que o promotor do caso chamou de “caça-níqueis”. Explica o desespero do pior presidente do São Paulo para a realização de shows no estádio, que por muito tempo foi a única opção para isso na cidade, mas que hoje, além se não ser o palco principal do circuito de apresentações de artistas internacionais, também não se paga financeiramente, já que o valor do aluguel não cobre o das bilheterias dos jogos que lá deixam de ser realizados. Fora a questão financeira, um evidente prejuízo esportivo, jogamos apenas 15 das 38 partidas no Morumbi no Brasileiro do ano passado, o que basicamente nos custou a vaga da Libertadores.

O Morumbi talvez seja o segundo estádio mais importante do país, atrás apenas do Maracanã, uma catedral do futebol mundial onde se escreveu não só a história do São Paulo mas de boa parte do futebol paulista, ele que por muito tempo foi o estádio onde se jogavam os clássicos, naqueles tempos em que se dividia torcida de mais de 100 mil pessoas, cada metade com mais gente do que a média de público atual.

Para além disso, de tudo que aquelas arquibancadas testemunharam, de todos os gritos, choros, alegrias e tristezas que ali foram vividas, de todos os momentos mágicos e irrepetíveis que milhões de pessoas que por lá passaram viveram, impregnadas dessas emoções como tatuagens, de tudo que se fez pelo futebol neste santuário, de todos os craques brasileiros e sul-americanos que por lá desfilaram, os milhares de cabeças-de-bagre que lhes foram valorosamente antagonistas e coadjuvantes, o palco do momento único do gozo primordial de tantos gols, cenário idílico de glórias e amarguras, o Morumbi, para mim, é um dos lugares preferidos no mundo. Assim como para tantos outros torcedores, minha vida seria outra, diferente, se não existisse o São Paulo e o Morumbi.

Vê-lo ser usado como “caça-níqueis”, assistir à sua profanação, o vilipêndio daquele tapete sagrado, único em São Paulo que ainda resiste sem nada de plástico onde deveria haver apenas grama, para a vil locupletação por quem dragou o Tricolor para sua pior crise na história, afetou-me mais do que eu imaginava. Passei um dia macambuzo, uma aflição sem nome e sem rosto me rondando, meus problemas cotidianos eram pequenos demais para justificar meu estado de ânimo, sem saber bem o porquê. Nem a renúncia do covarde Casares me animou, minha melancolia já tinha aumentado com a escalação do time, principalmente a defesa, a pior dupla de zaga possível no elenco com o ex-jogador em atividade Tolói e com a incógnita Dória, além do irregular Cédric e o ainda cru Nicolas. Mais que isso, era um sentimento intuitivo de que o pior ainda pioraria, e o fardo de torcer também inclui relegar a intuição não para um plano metafísico, parte integrante da vivência humana, mas para uma crendice astrológica destituída tanto de racionalidade quanto de fé.

O jogo começou ruim, o primeiro tempo se desenrolou ruim, acabou ruim, como ruim têm sido os jogos do São Paulo, alguém dos Leões da Fabulosa deve pensar o mesmo e com mais profundidade da Portuguesa, dois times ruins, jogando um campeonato que poderia ser bom mas é ruim, qualquer coisa já melhoraria porque tudo era ruim, um pequeno sorriso monalísico para qualquer lado seria um alento, algo menos ruim, mas não, o menos ruim da primeira metade foi Rafael.

Longe do estádio para onde tanto queria voltar, vítima dos meus fantasmas que se nutrem das chuvas que lá tomei, assistia ao jogo pela tevê com a mesma disposição da personagem da Kirsten Dunst no ótimo “Melancolia” do mestre Lars von Trier, ao mesmo tempo sabendo o que ia acontecer e inerte para fazer qualquer coisa frente a inevitabilidade da tragédia que se antevia.

No segundo tempo, a ponta-direita do ataque luso virou uma avenida, particularmente tenho bastante paciência com jogadores da base, mas Nicolas claramente não tem condições de jogas futebol profissional ainda, foi o pior jogador em Mirassol e infelizmente hoje de novo, embora com grande auxílio da péssima dupla de zaga. A Lusa tinha poucas chances, mas qualquer bola qualquer parecia uma daquelas bravatas de Trump, que não se sabe se são só bravatas mesmo ou se vão se concretizar logo em seguida. Não demorou para tomarmos o gol, parecia que implorávamos pelo castigo como quem busca penitência, falha dos três, Nicolas, Dória e Tolói. Em seguida, Calleri, que tem crédito mas que está longe de ser Luís Fabiano ou França, perdeu um gol em que o mais difícil era justamente perdê-lo, praticamente dentro da meta, os sinais estavam lá para quem queria enxergá-los.

O time da Portuguesa é bem ruim, e eu, que sempre simpatizei com a Lusa, que lamentei o vice-campeonato contra o Grêmio em 1996, que me revoltei com o assalto do Castrilli contra o Corinthians na semi do Paulista de 1998, que me espantei com o rebaixamento inexplicado e no tapetão de 2013, que me compadeci por vê-la ser mais uma vítima da promessa de que SAF possa ser um arremedo de solução, fiquei ainda mais triste, tanto porque esse time não vai chegar a lugar algum e de novo não vai subir da Série D do Brasileiro quanto porque era para esse time que perdíamos.

Crespo, cuja situação é menos encrespada que a da diretoria são-paulina, mas que vem claramente se encrespando nesse início de ano, vendo o que todos víamos, foi enfileirando titulares. Marcos Antônio já tinha voltado depois do intervalo, entraram Luciano e Bobadilla, e entrou Pedro Ferreira, mais um garoto, no rosto a tentativa de usar a concentração como máscara do frêmito temeroso e respeitoso que sentia em pisar naquele santuário, algo que os fariseus de Casares nunca sentiram.

Sua primeira jogada, claramente nervoso, foi péssima. Na seguinte, recebeu na intermediária da lateral direita, limpou bem o marcador e enfiou uma bola perfeita para Calleri que, claramente ainda sem confiança na técnica depois de um ano todo sem jogar bola e que já lhe tinha custado um gol, enfiou uma bomba, que passou do lado da cabeça do goleiro, um gol feito com a raiva de quem ficou tanto tempo longe do que mais gosta de fazer.

Era para parecer que a virada seria questão de tempo, mas não parecia, o São Paulo avançava desorganizado em busca da vitória deixando o campo aberto para a Lusa, que se aproveitou, mais uma péssima presença defensiva de Nicolas, Dória e Tolói, que resultou num pênalti evitável cometido pelo garoto (e apitado convicta e tranquilamente por Raphael Claus, mais meia dúzia dele e a arbitragem brasileira seria exponencialmente melhor).

1x2, Lusa na frente, que depois fez o terceiro, Calleri ainda achou o 2x3, um belo gol de cabeça em sua especialidade, os gols dele serão importantíssimos para evitar o pior que se avizinha como avalanche.

O próximo jogo é Choque-Rei no Palestra. Melancolia.