21.12.25 – Final da Copa do Brasil
Vasco 1 x 2 Corinthians, Copa do Brasil, 21.12.2025, Maracanã
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Não estava convencido de que a final da Copa do Brasil deveria ser a última partida da temporada. Ainda não estou, na verdade, já que a última rodada do Brasileirão é sempre eletrizante. Não se pode negar, contudo, que o jogo entre Vasco e Corinthians fui um encerramento digno para uma temporada caótica, finalistas e com todos os holofotes sobre si os dois maiores rivais dos protagonistas Flamengo e Palmeiras.
Melhor durante quase todo o confronto, tanto em Itaquera quanto no Maracanã, o Vasco parecia não sentir a imensa pressão que certamente lhe pesava os ombros, o que ficou bastante nítido pelo sentimento de angústia que exalava das arquibancadas, o que me lembrou o pesadíssimo clima no Morumbi na final de 2023, quando o medo de deixar o título escapar pelos dedos após termos vencido o Flamengo no Rio transformou o dia de festa em um martírio de 90 minutos, um título mais como alívio que como celebração. A machucada torcida vascaína, que viu seus três rivais cariocas campeões das últimas 4 Libertadores e dos últimos 2 Brasileiros, todos eles novamente classificados para a Libertadores 2026, talvez quisesse esquecer esse contexto, esquecer dos 4 rebaixamentos, esquecer o caos administrativo, a SAF safada que quase terminou de naufragar sua caravela, esquecer o Flamengo, impossível esquecer o Flamengo, eles ganham tudo, mas perderam o Mundial ridiculamente nos pênaltis depois de terem segurado o PSG por 120 minutos, esquecer tudo, os boletos, o Natal, o fim do ano, o ano que vem, as mudanças climáticas e a missa do próximo domingo, a única coisa que se quer nessa hora é ser campeão, depois de tanto tempo, há quanto tempo, tanta gente que nunca viu nem gritou, contra todos os prognósticos, teria sido lindo não fosse como tem sido nos últimos anos, trágico.
Vice de novo.
O futebol tem seus mistérios e um deles é a freguesia, aquelas situações entre times equivalentes mas que, inexplicavelmente, um sempre ganha do outro. “Sempre” aqui seria hiperbólica figura de linguagem, mas no caso de Vasco e Corinthians, ao menos quando estão sob as luzes da ribalta, é um dos maiores exemplos do planeta, o Vasco nunca vence o Corinthians, aquela bola marota que Diego Souza perdeu e Cássio defendeu, a disputa de pênaltis do Mundial Verão Vivo, todos os outros mata-matas, a última vitória digna de nota foi aquela dos cinco gols de Roberto Dinamite quando voltou do Barcelona, nem sei que ano foi aquilo.
Mas para que haja perdedores, tem que haver vencedores. E o Corinthians venceu como Corinthians. Diferentemente de sua torcida, os jogadores do Vasco pareciam preparados para serem campeões, jogaram dois bons jogos, não cometeram falhas individuais grotescas ou que levassem aos gols corintianos, fizeram o que em outras circunstâncias talvez fosse suficiente para ganhar. O problema era o Corinthians jogando como Corinthians.
A começar pela sua torcida. É interessante notar como cada time e cada torcida têm características próprias, muitas vezes únicas, e que não se sabe muito bem de onde vêm, e que moldam, ao longo dessa relação cármica e eterna que se estabelece entre o torcedor e seu clube, o modo como vivenciam essa história, que não é só de paixão ou amor, mas passa por quase todos os sentimentos humanos a maioria catalogados por palavras embora muitos dos quais são específicos aos torcedores mas que ainda, ao menos não em português, tiveram algum poeta que lhes atribuísse o nome. Um pouco são os torcedores que vão modelando o time, outro tanto é o time que vai condicionando sua torcida, mas a verdade é que vão estabelecendo uma relação tão umbilical que não é possível saber se uma pessoa escolhe torcer para um time pelas características de sua torcida ou se vai se adaptando àquela escolha primordial, que nos impõe aquele time para todo o sempre, embora se saiba que há muitos casos nos quais o time é que escolhe o torcedor, maneira única de racionalizar certas escolhas.
O Corinthians é um pouco como a vida, é um pouco como o Brasil, e talvez por isso atraia tanta gente. Em meio ao caos, devendo cerca de R$ 3 bilhões, sem perspectivas próximas de solucionar seus débitos, com presidente destituído, inúmeras investigações criminais em andamento, toda sorte de problema sem solução, com o cúmulo de ter solicitado que o Fluminense trocasse de camisa para um jogo em seu estádio já que não teria uniforme branco para jogar, com um time caro e medíocre, que terminou o campeonato na 13ª posição, atrás de todos os demais paulistas, seus rivais do Trio de Ferro, do Santos que lutou contra o rebaixamento até a última rodada, do inexpressivo Red Bull e do surpreendente novato Mirassol, que fez uma partida horrível em casa, amplamente dominado pelo Vasco. Tudo parecia dizer e prever que o Vasco, tampouco afastado de problemas parecidos, seria o campeão.
A Fiel não acreditava nos dirigentes do clube, não acreditava no técnico Dorival Júnior depois da temporada vacilante e da sova tática que levou de Fernando Diniz no primeiro jogo da final, não acreditava nos jogadores e seus pífios desempenhos ao longo do ano, quando pareciam escolher os jogos que jogariam. A Fiel acreditava, e sempre acredita, no time, pois não importa o que aconteça fora do campo, não importa quem esteja vestindo a camisa corintiana, o time está acima de tudo.
Em nenhum momento, diferentemente do que se viu nos cruzmaltinos, a torcida corintiana duvidou do título, porque sabia que ele viria. Para quem estava assistindo ao jogo isento como eu (pero no mucho), que não torcia para nenhum dos times, parecia bastante evidente que o Corinthians só seria campeão no tempo normal com muita sorte ou que cozinharia o jogo para levá-lo para os pênaltis. O Corinthians não fazia nada no jogo e apenas uma jogada de craque poderia destravar a dominância do Gigante da Colina, craques esses que andam escassos de ambos os lados, Memphis é apenas um jogador pouco acima da média, assim como é Philippe Coutinho. Como só acontece com o Corinthians, as jogadas de craque aconteceram.
Raniele deu um passe de Neto, uns 60 metros, atravessando toda a largura do campo, da lateral esquerda defensiva para o lateral direita na altura da linha do meio, no peito de Matheuzinho, que dominou e lançou como Rivellino, mais de 50 metros, na entrada da ponta esquerda, no pé de Yuri Alberto, que se movia em direção ao gol, dominou como Casagrande e deu um leve tapa, daqueles que só Ronaldo Fenômeno sabe fazer, o limiar entre evitar a perfeita saída de Léo Jardim, a bola tocar na trave e entrar, um golaço, definitivamente de craque.
A massa vascaína, temendo o vice de novo, murchou-se, e logo em seguida Yuri Alberto teve a chance de acabar com o jogo, livre na entrada da área, na sobra de uma bola vadia, mas chutou como Yuri Alberto e a bola saiu por muito, por cima, sem perigo. O Vasco continuava melhor, sem de fato ameaçar as traves de Hugo Souza. No fim do primeiro tempo, Cauan Barros rouba uma bola no meio de campo, passa rapidamente para Coutinho que domina e lança Andrés Gómez na ponta esquerda, que cruza perfeitamente, não sem antes driblar André Ramalho, para um belo gol de cabeça de Nuno Moreira. Parecia que as coisas voltavam ao normal e que o time que era melhor construiria sua vitória no segundo tempo.
No segundo tempo, o Vasco continuava melhor, claramente melhor, e o Corinthians só fazia se defender. Aos 14’, o lance decisivo, que pouca gente se atentou: Yuri Alberto rola com Thiago Mendes após uma dividida, começa o empurra-empurra, reservas entrando em campo para separar, cartão amarelo para cada lado e foi o momento em que, enfim, o Corinthians invadiu a mente cruzmaltina, alugou toda a Colina, aquele fugaz instante em que um passa a ter a certeza de que vai vencer e o outro começa a duvidar de que vai ganhar. Ainda assim, para que se resolvesse no campo e não na cal, faltava ao Corinthians outra jogada de craque. E ela veio 3 minutos depois.
Em uma disputa com Cauan Barros, Breno Bidon aplica um drible memorável de Marcelinho Carioca, e embora não sejam parecidos, lembrou-me aquele da Vila Belmiro que lhe rendeu a placa do Rei, desmontou a defesa vascaína, há muito não via um lance que clareasse tanto uma jogada como esse, eram quatro corintianos atacando dois vascaínos, Bidon abre na direita para Matheuzinho, que enfia Yuri Alberto na ponta, cruzamento rasteiro perfeito para Memphis consagrar-se como o maior ídolo neerlandês do futebol brasileiro, embora Seedorf, esse sim craque, tenha sido muito mais jogador.
O resto do jogo é o resto, o que o Corinthians sabe fazer de melhor, aquele pseudo sofrimento que o caracteriza, suportar a pressão, espirrar bola, enervar seu adversário e correr para os braços da Fiel, que evidentemente já sabia o desfecho. Só os loucos sabem.
