28.01.26 –São Paulo 2 x 1 Flamengo
Brasileirão, 28.01.2026, Morumbi
9 min read


Dia de voltar para casa. Sempre temeroso com as chuvas de janeiro em São Paulo e certo que deveria estar no Morumbi na estreia do Brasileirão, adiei minha volta à arquibancada por um lugar seco e coberto nas cadeiras.
Quando se mergulha numa crise, é difícil ver saída, seja em qualquer escala, a profunda erosão das democracias com a ascensão da extrema direita autoritária pelo voto, nos mais diversos e distantes países e regiões, e principalmente na maior potência mundial, não nos permite enxergar o que vem pela frente.
De todos as coisas desimportantes da vida, o futebol é a que mais importa. Com dívida quase bilionária, presidente escorraçado, técnico errático, jogadores com salários atrasados, à beira do precipício do rebaixamento no Paulista, o São Paulo estreia no Brasileirão contra o todo-poderoso Flamengo, a quem todos atribuem o favoritismo absoluto para todos os campeonatos que disputará este ano e que acaba de gastar quase R$ 300 milhões para repatriar o questionável Lucas Paquetá, dinheiro que é o orçamento de quase todos os times da Série A.
Exceto nós, torcedores tricolores, ninguém acreditava na vitória são-paulina, embora eu já soubesse que ela aconteceria antes de o jogo começar.
De novo os sinais. Logo saindo do metrô, ainda dentro da estação São Paulo-Morumbi, encontro Diego Lugano e o cumprimento de longe, nos conhecemos há mais de vinte anos, embora ele nem saiba da minha existência ao mesmo tempo que sabe quanto orgulho e alegria me trouxe. O jogo prometia e durante a caminhada até o estádio, parei no boteco para tirar o pó da garganta, já sabedor de como ela estaria em frangalhos horas mais tarde. Assim que eu chego e paro na frente da televisão, onde já se aqueciam muitos tricolores e alguns flamenguistas, é sempre amistoso o encontro de nossas torcidas, todos parados como se fosse final de campeonato, e ao menos era para o Benfica que precisava ganhar por dois gols um jogo que vencia de 3x2 do Real Madri para seguir na Liga dos Campeões, último lance, falta típica para cruzamento, todo o time e o goleiro na área, bola alçada, Trubin, o ucraniano goleiro benfiquista, sobe mais que todos os zagueiros espanhóis e acerta uma bela cabeçada, num perfeito movimento dos melhores centroavantes, no canto do monstruoso Courtois, que, o que é raro, nada pôde fazer. Uma explosão de gols e comemorações de todos que pararam para ver o lance incomum, tanto de são-paulinos quanto de flamenguistas, e foi inevitável pensar que em dia de gol de goleiro o São Paulo ganha jogo.
Não mais que dez minutos depois, quem faz uma rápida parada no bar é justamente Diego Lugano, cercado de algumas pessoas, talvez seguranças e o que parecia uma equipe de filmagem que, sempre simpático com todos, ele que foi o capitão da maior seleção uruguaia desde Obdulio Varela, que um dia comparado com o próprio Varela disse que não se brinca com os deuses, conversou e tirou selfies com todos. Nossa conversa foi rápida e definitiva: “Não te encontro desde Córdoba”, “Então Córdoba não conta, porque hoje vamos ganhar”. Ele, que sabe mais do que eu, também sabia o que eu sabia.
De lá, fui encontrar uns amigos na sede da Independente, que fica de frente ao portão da arquibancada leste, onde costumamos ir. É usual algum show por ali antes dos jogos, principalmente nas partidas contra rivais cujas torcidas sejam “aliadas”, como se denominam. O show da noite era do Katinguelê, representante da era de ouro do pagode paulista dos anos 90 e 2000, era de ouro do São Paulo Futebol Clube, era de quando éramos reis, donos do mundo, soberanos.
A certeza da vitória, que neste momento era clara como os holofotes que já iluminavam a grama sagrada do Morumbi, sofreu uma ínfima pontada quando tocaram “Mas, que nada!”, do rubro-negro Jorge Ben Jor, talvez o maior compositor brasileiro, certamente o maior compositor mundial de músicas sobre futebol, e como ao lembrar dele é indissociável lembrar igualmente do time que ele torce, confesso que um inevitável calafrio se fez sentir quando ouvi “Sai da minha frente que eu quero passar”, esses vaticínios meio amaldiçoados antes de um jogo como este não são de bom agouro.
Já no estádio, me chamou a atenção um aquecimento de zagueiro que eu nunca tinha reparado, Alan Franco, Sabino e Arboleda, com um preparador se fingindo de atacante adversário, treinavam como se adiantar aos passes que ele receberia, o que se mostraria crucial depois no jogo.
A volta dos três zagueiros, tentando devolver alguma solidez defensiva contra o poderoso ataque rubro-negro era a coisa certa a se fazer e Crespo colocou o melhor time que poderia estar em campo: Rafael; Alan Franco, Arboleda e Sabino; Maik, Danielzinho, Bobadilla, Marcos Antônio e Enzo Díaz; Luciano e Calleri.
Começa o jogo e rapidamente me lembro porque fazia tempo não assistia a um jogo das cadeiras superiores, as “cadeiras cativas”. Pouca gente vibra, pouca gente canta e muita gente já reclama e xinga os jogadores assim que o juiz apita, um bando de terraplanistas que preferem acreditar que temos os melhores jogadores da história do futebol e que só não jogam porque estão de má-vontade e que do outro lado há uma manada de pangarés. Mudei de lugar, para longe de uma dupla especialmente raivosa que tinha um prazer sádico em apupar Maik, mais próximo da lateral onde estávamos, e um prazer masoquista em sofrer com suas supostas péssimas jogadas.
O jogo em seu início não se afastou do esperado, São Paulo acuado pela pressão flamenguista. Se a melodia era sabida, os tons é que não pareciam o que estava na partitura, São Paulo disputando todas as bolas e o Flamengo jogando leve, uma pressão que não impressionava, talvez atrapalhados pelas chuteiras de salto alto daqueles que têm a certeza de que farão o gol quando quiserem e ganharão o jogo inevitavelmente.
Embora a defesa jogasse bem, que o time todo defendesse bem, não conseguia atacar. A diferença de qualidade das equipes e dos jogadores individualmente é notável, exceção a Marcos Antônio, que talvez por isso esteja sendo assediado pelos rubro-negros. Se coletivamente parecia que o São Paulo conseguiria sustentar-se contra o jogo coletivo do Flamengo, estava evidente que era impossível resistir a alguma grande jogada individual, que surgiu enfim aos 14’, um passe espetacular de Cebolinha do lado direito para Carrascal se infiltrar pelo miolo da nossa zaga e receber livre, cara-a-cara com Rafael, e das um milhão de opções que ele teria para fazer o gol, cortando antes do chute, driblando o goleiro, cavando, chutando de rosca, trivela ou bico, tocando no canto, saindo para o abraço e para os braços da Nação, resolveu tentar uma das únicas jogadas pífias e que não resultariam em gol, um toque maroto, fraco e sem direção, bola para fora sem qualquer perigo, um gol que só perde quem é muito ruim ou que tem a certeza de que vai ganhar.
A cada ataque mais incisivo do Flamengo, um coro uníssono vindo do setor dos visitantes, um canto lúgubre de uma ave carniceira prenunciando o beijo fúnebre da morte: “Meeeengo, Meeeengo”. Impossível não se arrepiar, a prova de que o medo pode ser expresso em apenas uma palavra.
Logo depois, Cebolinha, mais ou menos do mesmo lugar de onde tinha feito a brilhante jogada que Carrascal desperdiçou, resolveu finalizar e a Rafael coube apenas espalmar uma bola venenosa, pingando cheia de efeito, salvando o gol.
Em seguida nosso primeiro verdadeiro ataque, um excelente lançamento de Maik para Luciano na entrada da área, que tirou Léo Pereira com um drible seco, mas não o bastante para evitar que o zagueiro flamenguista se recuperasse o suficiente para bloquear sua finalização, a única bola que poderia ser gol no primeiro tempo virou um chute mascado sem muito perigo.
O empate do primeiro tempo talvez fosse considerado um bom resultado para o São Paulo por quase todo mundo, mas não para nós que estávamos no Morumbi, não para mim, isso cheirava mais a uma audiência de conciliação, dá um ponto para cada um pra ninguém sair triste e perder tudo, impedindo que alguém pudesse sair feliz, nesse cálculo onde a soma do ponto de cada um vale menos que a vitória de qualquer deles, quem inventou a regra da vitória de três pontos é um gênio, e era a certeza da vitória que me movia, sem conciliação, sem concessão, sem empate, com a intransigência de um Michael Kohlhaas.
O time voltou bem para o segundo tempo, Danielzinho e Marcos Antônio faziam uma boa partida, era bastante difícil segurar o meio-campo dos cariocas, e a primeira boa chance da segunda etapa vem de um belo passe de Marcos Antônio para Bobadilla que deveria ter chutado da entrada da área, tentou limpar a jogada e acabou chutando fraco para uma fácil defesa de Rossi.
Se coletivamente o São Paulo estava seguro, não era, como ninguém é, invencível à genialidade, e aos 8’, Alex Sandro cruzou uma bola precisa no peito de Pedro, que nada faria no meio de cinco defensores são-paulinos, e quando se esperava que dominasse a bola ele simplesmente passou, de peito mesmo, num único toque, um passe de futevôlei, dinamitando toda a embasbacada defesa tricolor, para Plata fazer o gol, quem não arrisca não vive o extraordinário, mergulhamos, nós torcedores, numa neblina espessa e invisível de admiração, incredulidade e inveja, o que poderíamos nós com aquilo? Não bastasse, após a catarse do gol, o urubu voltava a piar, aziago: “Meeeengo, Meeeengo”.
Permanecemos inteiros, juntos somos mais fortes, no entanto agora não bastava defender muito, tínhamos que atacar, e assim que saiu o gol, Filipe Luís começou a colocar o resto da cavalaria em campo, com Arrascaeta e Jorginho.
Desistir nunca foi uma opção, e aos 15’ Marcos Antônio inverte uma grande bola da intermediária direita para a ponta esquerda para encontrar Enzo Díaz, que domina, olha para a área e faz o centro, um cruzamento alto e perfeito entre o zagueiro e o lateral esquerdo, na cabeça de Luciano que desvia para o canto direito de Rossi, Luciano, o homem que abre placares, uma tempestade de alívio nos enxarcou, voltamos para o jogo, 1x1.
O Flamengo continuava atacando, continuava em cima, pressionando, embora ainda meio blasé, meio soberbamente, ainda acreditando que ganharia o jogo quando quisesse, muito pela postura de Jorginho e Arrascaeta, que agregaram técnica na mesma proporção que tiraram a intensidade de sua equipe. Ainda entraram Bruno Henrique e Samuel Lino, enquanto o Tricolor se segurava com os onze iniciais, não havia ninguém no banco à altura dos que jogavam bem no gramado. Dez minutos depois de seu primeiro gol, o São Paulo voltava a estocar. Marcos Antônio acha um bom passe para Luciano na intermediária central, o camisa 10 penteia um pouco a bola esperando o avanço do time, toca atrás para Calleri, que abre para Marcos Antônio na ponta direita, que dá um toque preciso para Luciano já dentro da área receber a bola perto da linha de fundo, que cruza de primeira, Pulgar tenta dominar de peito, outra jogada de futevôlei, mas ele não é Pedro e não é carioca, a bola rebate nele e sobra pra Danielzinho fuzilar Rossi, gol, a virada, o grito gutural que há muito tempo estava guardado esperando um gol como esse, num jogo como esse, como São Paulo, um berro de amor e esperança, aquele instante único, epifânico, pelo qual ansiamos toda quarta e domingo.
Talvez só nesse momento os rubro-negros, os do campo e os da arquibancada, tenham percebido que não ganhariam o jogo quando quisessem, e voltaram à carga, mas o São Paulo jogava bem, todos jogavam bem, com força, vontade e coração.
No último lance, naquele desespero do abafa final, Léo Pereira, do bico esquerdo da área tricolor, cruza com precisão para Plata no centro da área, uma cabeçada bem parecida com a de Luciano, mas esse jogo jamais poderia terminar empatado, Rafael pulou, esticou-se e defendeu, talvez sua melhor defesa no São Paulo, talvez a defesa do campeonato ainda na primeira rodada, defesa que nos valeram dois pontos, Arrascaeta ainda pegou o rebote e chutou para fora.
Quando parecia que tudo estava acabado, o apitador Wilton Pereira Sampaio ficou esperando por um tempo que a nós pareceu longuíssimo, não sei quantos minutos, foram, horas, dias, foi uma vida inteira, o VAR caçando um pênalti inexistente para o Flamengo, o gosto amargo da frustração por ser mais uma vez assaltado em casa já brotando na boca, até que enfim o jogo volta e termina.
A equipe toda foi excelente, Danielzinho e Luciano jogaram demais, Marcos Antônio foi um maestro, Sabino deu até chapéu, Enzo é o símbolo da raça, e Arboleda só não recebe dez porque deu uma rateada num lance meio perdido, sem perigo, mas acertou todo o resto.
Quando tudo estava bem, lindo, feliz e emocionante e me viro para ir embora, vejo que a “cadeira cativa” ao lado da minha era a de Juvenal Juvêncio, onde toda essa crise começou, e não há como conter um pingo de raiva.
Um dos versos mais bonitos da poesia mundial foi escrito por Baudelaire: “Eu tenho mais recordações do que há em mil anos”. Nós, torcedores, vivemos em 90 minutos mais emoções do que há em mil anos.
* * *
Acabamos o primeiro dia de campeonato empatados em terceiro, atrás da líder Chapecoense que goleou o Santos por 4x2 e do Vitória que venceu o Remo por 2x0. Como já havíamos entoado durante a noite, “Dentre os grandes/ és o primeiro”.


Como se vê, não sei tirar selfie mas sei tirar print da tela ;)
