31.01.26 – San-São
São Paulo 2x0 Santos, Campeonato Paulista, 31.01.2026, Morumbi
6 min read


Depois da ótima vitória contra o Flamengo pelo Brasileirão, faltava desencalacrar no Paulista, em um clássico. Acabados os testes do que o próprio Crespo chamou de pré-temporada com jogos oficiais, os primeiros jogos nos quais o time jogou algumas partidas bem ruins e sempre esteve vulnerável na defesa, a volta dos três zagueiros no jogo anterior trouxe o ponto de equilíbrio que os jogadores desse elenco precisam para de fato formarem um time.
Para mim também se encerraram os testes de pré-temporada e voltei para a arquibancada do Morumbi com minha filha e meu filho.
Tenho uma particular impressão do San-São, que não sei se é real ou se é uma experiência construída por memórias específicas, que, diferentemente do Majestoso e do Choque-Rei (este o meu clássico predileto), o San-São é um jogo em que a técnica e a busca pelo gol supera a pancadaria de meio-campo que trunca o jogo. Se Majestoso e Choque-Rei são jogos que se vencem pela defesa, o San-São é um jogo que se vence pelo ataque. Talvez eu veja assim por que certamente foi o jogo que mais assisti ao vivo, no Morumbi, no Pacaembu e na Vila, um jogo que não importa como os times estejam, parece que sempre podem produzir grandes lances e lindos gols.
E, apesar da rivalidade, o Santos é único no mundo, o time onde jogou Pelé, fator bastante para que seja eternamente reverenciado, e já me peguei torcendo algumas vezes para o Peixe, naquele jogo épico da semi contra o Fluminense em 1995 e depois na final contra o Botafogo, na final da Libertadores contra o Boca em 2003, para que não caísse em 2023 e 2025 (e agora vejo que minha torcida talvez seja desprezada pelos santistas, pois quase nunca deu resultado). Para a geração dos meus filhos, é o berço de Neymar e onde ele hoje joga, se Pelé é o Rei, Neymar é o príncipe, o craque que nunca foi, o príncipe que nunca será coroado rei, e embora eu sinta um profundo desencanto por ser ele o ídolo dessa geração, não há nada que se possa fazer quando não há nem um outro craque brasileiro jogando bola atualmente, alguns bons, alguns ótimos, mas craque, nenhum.
Já tentei levar meu filho, porque muito insistiu, para ver Neymar. Fomos ao Parque dos Príncipes em 2019 e ao menos vimos Mbappé empatar um jogo perdido do PSG contra o Strasbourg por 2x2, fomos à abertura da Copa América em 2019 contra a Bolívia, cogitamos ir a algum jogo do Santos ano passado, mas sempre há o risco de ele não jogar, contra o Tricolor, nos quatro jogos desde que voltou para o Brasil, ainda não foi a campo em nenhum, mais fácil para meu filho e vê-lo na King’s League, esse arremedo tictocker de futebol.
O clima era ótimo, leve, confiante, nada como uma boa vitória no jogo anterior para que o amor que se fingia escondido dê as caras novamente. Com o peso da torcida única, 50 mil torcedores ditando o ritmo da equipe, logo se via que o São Paulo dominaria a partida, acuando o Santos para sua defesa. Com 2’, Brazão já tentava encerar o jogo e tomou um pito do juiz. Diferentemente da minha visão idílica sobre o San-São, o clássico começou pegado, o Peixe batendo bastante e cada vez mais à medida que se irritava com a dominância são-paulina, até que Gabriel Menino, sempre atento a confirmar o trocadilho infame e infeliz de que precisa crescer e virar o Gabriel Adulto, começou uma presepada aos 16’ quando estourou uma bola morta em um lance já parado na cabeça de Tapia, empurrão de Enzo, me solta que vou pegar ele, aquele forfé que não leva a nada a não ser a um cartão amarelo para cada lado, Menino e Enzo, um lance típico de clássico mas que custaria as chances santistas vinte minutos depois.
O São Paulo era absoluto no jogo, não sofria na defesa e atacava com perigo, Danielzinho era o motor, Marcos Antônio o maestro, Arboleda o alicerce, todos jogando bem novamente, pelo segundo jogo consecutivo. Aos 26’, Danielzinho enfia uma bola precisa para Tapia na esquerda chutar cruzado com perigo. Aos 28’, Sabino lança Enzo Díaz na ponta que, ao invés de cruzar, rola para trás para Bobadilla desferir um chute perigoso, também cruzado, salvo pelo leve desvio na zaga do Santos.
Há jogos em que os gols são construídos em jogadas isoladas, brilhantes triangulações ou estupendos dribles individuais, falhas grotescas da defesa ou uma bola parada vadia. Há outros, contudo, e como este, em que os gols não aparecerão logo, são fruto da equipe que o germina e da torcida que lhe aduba, até que amadurecem, alguns como pequenas cerejas, outros uma jaca enorme, que cai no chão, se espatifa, explode no grito da torcida, que golaço, não há gol mais comemorado do que aquele feito por todos.
Era mais ou menos o roteiro do jogo, São Paulo empurrado pela torcida empurrava o Santos que encolhia nas cordas, o gol amadurecendo, até que Menino fez outra meninice, aos 35’, em uma jogada que Marcos Antônio cortava da esquerda para o meio, já perto da área, deu-lhe um carrinho por trás, longe da bola, segundo amarelo, expulsão e o gol era questão de tempo. O técnico santista Vojvoda aproveitou a expulsão para trocar dois jogadores e tentar consertar o time pessimamente escalado a pretexto de rearrumar a defesa após o cartão vermelho. O Peixe conseguiu cozinhar o resto do primeiro tempo enquanto a jaca amadurecia, “o gol era questão de tempo, é só ter paciência”, vaticinei para meus filhos.
Vendo que a lei da compensação provavelmente seria aplicada, Crespo substituiu os amarelados Sabino e Enzo Díaz por Wendell e Lucas, desfazendo o sistema de três zagueiros, o que fazia sentido diante do recuo do Santos, já desfalcado de um atleta. Logo aos 5’, após troca de passes perto da área, Lucas recebe e faz uma boa jogada driblando a zaga santista, cruza para trás rasteiro para Luciano que dá um petardo na bola, Brazão faz uma defesa impossível, a bola sobra para Wendell à queima-roupa, outra defesa fabulosa do arqueiro, o rebote com Tapia, que no mais improvável dos três arremates acerta o ângulo, dessa vez o desvio foi a nosso favor, golaço, a jaca madurinha se arrebentando no fundo do gol do Peixe, um gol que fizemos todos, de tanto insistirmos, de tanto apertarmos, de tanto acreditarmos.
Garroteado, o Santos tinha pouco a fazer e muito a perder. Cinco minutos depois, Marcos Antônio faz um lançamento espetacular para Luciano, que recebe no bico direito da área de Brazão, nossa visão da arquibancada era perfeita para ver ele ajeitar o corpo, tirar o defensor só com esse movimento e esperar o momento preciso para desferir o golpe de misericórdia, com raiva, no meio das pernas do goleiro, outro golaço, as frutas têm disso, não começam a amadurecer depois que a anterior já madurou, vão amadurecendo todos ao mesmo tempo, umas acabam um pouco antes que outras, mas quando começam a vir, desabam em um tapete colorido em volta da árvore.
Tinha muito mais por vir, era daqueles jogos em que a goleada é certa exceto se se abdique da vitória, Vojvoda foi trocando seu time para que ficasse o mais defensivo e recuado possível, para ele entre se arriscar a viver o extraordinário de empatar um jogo perdido com o risco de ser goleado e perder o emprego, preferiu perder de apenas 2x0, Dante deveria ter deixado um círculo do inferno só para esses que preferem perder de pouco. Em um chute aleatório de Barreal, Rafael fez uma defesa estupenda, era o único que faltava brilhar no jogo. O São Paulo poderia ter feito mais gols, a goleada poderia vir, deveria ter vindo, mas faltou aquela última volta no torniquete, o que é compreensível sabendo que jogaremos novamente, agora pelo Brasileirão e na Vila, na quarta-feira.
Uma partida quase perfeita, preciosa, Marcos Antônio foi o melhor, Arboleda se soubesse passar teria feito carreira no Real Madri ou na Premier League, que tempo de bola para antecipar, cortar e desarmar, Arbolenda, se jogássemos assim sempre como jogamos nos dois jogos dessa semana, seríamos campeões.
“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/ Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”. Por 90 minutos, meu time, que não é o melhor do mundo, foi o melhor do mundo, porque ele é o meu time.
