05.07.26 – 2º dia de oitavas da Copa

Copa do Mundo, 05.07.2026, Brasil 1 x 2 Noruega; México 2 x 3 Inglaterra

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De ontem para hoje, eu era um vulcão de sentimentos, talvez nem todos bons, mas certamente nenhum ruim. Conviviam em mim ansiedade para que a partida acontecesse logo, expectativa por um bom resultado, entusiasmo pela melhora gradual que a equipe vinha mostrando, confiança de que teríamos uma grande apresentação, admiração pelo que Ancelotti fizera no jogo anterior, euforia por grandes atuações de Vini Jr., Bruno Guimarães e Matheus Cunha, nossos melhores jogadores dessa Copa, saudosismo pelo que já fomos e desejo para que isso se repetisse para que meus filhos pudessem sentir o que já senti.

Mais que isso, depois da ignomínia de 2014 e da indiferença tediosa do período penúmbrico de Tite, em 2018 e 2022, eu voltava a sentir o genuíno sentimento da paixão pela Seleção, aquela paixão de torcedor, de quem, acima de tudo e de todos, acima dos Mbappés, dos Messis, dos Cristianos, dos Haalands, dos Kanes, dos Modrics, doa Yamals, dos Salahs e dos De Bruynes, acredita.

Começada a partida, vi-me envolto em sensações ambíguas. Mais que ambíguas, paradoxais: a racionalidade de que a estratégia de entregar impunemente a bola para a Noruega, refutando tudo que demoramos um século para construir, era, mais que uma temeridade, um absurdo. De outro lado, nessa loucura de negar as aparências e descartar as evidências, quis piamente acreditar no Mister, que é o que nós, torcedores, fazemos quando estamos apaixonados por nosso time.

Aliás, esse é um aspecto do processo que nunca é linear, o de acreditar que é possível ser campeão e, além, que será campeão. Nesta específica Copa do Mundo, passa por deliberadamente ignorar a bola que a França está jogando, especialmente Mbappé e Olise, cegar-se à resiliência argentina, pronta para dar a vida para que Messi faça o gol, fingir não conhecer o controle de jogo espanhol, o trabalho imenso que dá querer pintar Yamal como mais um pontinha faceiro qualquer, e esnobar o fato de que ao menos 40 das outras 47 seleções tinham times mais organizados (ainda que não necessariamente melhores) que o nosso.

O gol norueguês inicial, com menos de 3’, embora anulado pois fruto de um impedimento, trouxe um inesperado calafrio na espinha.

A clara estratégia de Ancelotti era esperar a Noruega em nosso campo de defesa para diminuir o campo para Haaland e seus galopes rompantes e, quando recuperasse a bola, puxar rapidamente o contra-ataque. No começo da partida, o plano parecia funcionar, o centroavante norueguês não pegava na bola, e, antes dos 10’, Rayan rouba a bola, ganha a dividida com um segundo defensor, e o Brasil fica em superioridade numérica de 5x4 contra a defesa, Rayan passa para Guimarães, que enfia na entrada da área para Martinelli, agora no 1x1, Martinelli, indo para a direita, toca na esquerda para a entrada de Matheus Cunha que tenta driblar o zagueiro e sofre um carrinho do atrasado defensor, pênalti claro que o árbitro não apitou e que precisou das imagens do VAR para assinalar a infração.

Quando enfim o juiz conseguiu liberar a área para a cobrança, Vini, que estava na marca da cal com a bola na mão, cede a vez para Bruno Guimarães, o que, evidentemente, deixou todos um tanto atônitos e estupefatos, mas vamos lá, Guimarães tem feito uma ótima Copa. Minha namorada estava escondida no corredor, é daquelas pessoas que preferem não ver pênaltis, cada um prefere sofrer esse momento à sua maneira, e quando falei que Guimarães seria o batedor, a resposta veio em forma de um resmungo qualquer, seguido do período interminável que deve ser o silêncio esperando a vibração pelo gol para poder comemorar também, a comemoração que nunca chega, a consciência de que a penalidade já foi perdida tentando ser esganada pela esperança de que a ainda não tenha sido cobrada, até que enfim algum arauto agourento, às vezes o próprio locutor, neste caso era eu, informe que o goleiro defendeu.

O lance foi como um pequeno sopro num castelo de cartas. Além da incompreensão da escolha de Ancelotti por Guimarães, que não é batedor de pênaltis no seu time, a cobrança, precedida de duas respiradas profundas que desmascaravam qualquer tentativa de fingir calma e confiança, foi péssima, uma tentativa de paradinha para deslocar o goleiro, que permaneceu imóvel, até Bruno chegar muito próximo da bola a ponto de já não conseguir aplicar força nem direção suficientes para vencer o arqueiro viking, que fez uma defesa tranquila. Não bastasse, o erro certamente afetaria, como de fato afetou, a confiança de nosso melhor meio-campista, que foi minguando em campo no restante, que era bastante, da partida. Era compreensível que não se escolhesse Vini, sabidamente um cobrador de pênaltis nada mais que razoável, mais talvez fosse o caso de colocar outro atacante para bater, talvez Cunha ou Martinelli, ou ainda o outro meio-campo, Casemiro. Por fim, o lance ainda abalava a equipe toda, dada nossa conhecida e histórica má relação com penais desperdiçados. Um exemplo? Rayan, no ataque seguinte, invadiu a área e chutou muito longe por cima e à esquerda do goleiro. Depois disso, recebeu inúmeras bolas na ponta direita e não tentava nada, um drible, um chute, um cruzamento, toda bola que chegava nele, voltava para trás.

A bola ficava quase o tempo todo com a Noruega, porém era uma posse estéril, normalmente morrendo nos pés do centroavante Sorloth, muito mal como ponta-direita, e do ponta-esquerda Nusa. A selação só esperava, permitindo passivamente a troca de passes norueguesa que não chegasse perto da área brasileira. O Brasil ainda teve algumas jogadas de 3x3 ou 2x2, sempre no contra-ataque, mas não conseguia finalizar. Aos 30’, Martinelli fez boa jogada pela esquerda, próximo à linha de fundo, cruzou forte e rasteiro para o meio da área, o goleiro Nyland defendeu com o pé, a bola quase entrou e sobrou na outra ponta para Rayan que, lógico, tocou para trás, mas Danilo, que durante toda a Copa mostrou-se uma aposta quase tão ruim quanto Neymar, furou bisonhamente.

Logo depois desse lance, a Noruega pareceu entender o que estava acontecendo, e passou a tentar alguns lançamentos diretos do goleiro para Haaland. No primeiro deles, Magalhães foi batido com facilidade, mas Alisson chegou antes do atacante, sem a hesitação que nos custou o gol contra Marrocos, e chutou para longe.

Aos 40’, a segunda chance clara de gol, Vini perde a jogada na ponta esquerda Odeggard domina a bola, mas Vini divide com o capitão norueguês e a pelota sobra para Martinelli, que toca para Vini já dentro da área, que, ao invés de chutar, prefere limpar o zagueiro para aí sim bater no gol, agora com menos ângulo, o que facilitou a defesa de Nyland.

Em seguida, em outro chutão do goleiro, Haaland disparou em direção ao gol, mas Magalhães conseguiu se antecipar e recuar de cabeça para Alisson. No finalzinho do primeiro tempo, mais uma bica do guarda-metas para o campo de ataque, Haaland atropelou Magalhães, ganhou o espaço de Marquinhos com o corpo e fez um ótimo pivô para Odegaard, que não finalizou tão bem e permitiu que Alisson defendesse até com certa facilidade.

Ao fim do primeiro tempo, o sentimento era amargo, a consciência de que a estratégia até fazia sentido e funcionara e que não tinha se concretizado no placar por falhas dos nossos jogadores nas finalizações, a decepção com o pênalti e as chances perdidas e a angústia com ver a Seleção jogando como uma equipe qualquer, sem camisa e sem história, abdicando de jogar para esperar, quem sabe, alguma chance em algum contra-ataque, a estratégia heroicamente adotada por Cabo Verde contra a Argentina, a fracassada e catimbeira tentativa de Paraguai contra a França. Havia, ainda, a percepção de que a estratégia não funcionaria na volta do intervalo, pois a Noruega já descobrira como penetrar na defesa brasileira a partir dos chutões do goleiro para Haaland.

O segundo tempo foi uma sequência quase perfeita do primeiro, com o Brasil recuando ainda mais e a Noruega cada vez mais com a bola, agora com dois pontas que realmente são pontas, Schjelderup e Bobb nos lugares de Nusa e Sorloth. Houve momentos em que os noruegueses trocavam seus passes andando em campo, chegaram até a ficar parados com a bola no pé sem que absolutamente nenhum brasileiro fizesse uma sombra que fosse para dissimular que tinha a mínima intenção de retomar a redonda.

Sem sair de sua estratégia, Ancelotti substituiu Matheus Cunha por Endrick, que logo em sua primeira participação, em outro contra-ataque, foi deixado na cara do gol por um excelente passe de Vini no meio da zaga nórdica, mas o jovem, mostrando por que é banco e para desespero dos endrickistas, uma espécie de viúva de Neymar, errou a passada, errou o domínio e errou o chute, um lance quase cômico se não fosse a tragédia a que assistíamos.

Perto dos 15’, Rayan enfim chutou no gol e o goleiro rebateu mal uma bola fácil, mostrando que na verdade não era tão bom assim, o que parece não ter animado os nossos para tentarem novos tiros.

Era desesperador ver a Noruega com a bola sem nenhuma oposição, piorado pelo fato de que passou a entrar na área brasileira com frequência, principalmente por jogadas de Schjelderup na direita da nossa defesa.

A entrada de Endrick, que parecia ter dado um novo ânimo e uma nova dinâmica para a equipe, foi rapidamente soterrada pelas novas substituições, pouco depois dos 20’, quando Ancelotti tirou Rayan e Martinelli para as entradas de Danilo Santos e Neymar. Se a partida de Rayan no ataque era quase inexistente, ao menos ele auxiliava na marcação da ala direita, onde o lateral Danilo sofria com Schjelderup. Foi o início do fim, e vaticinei a derrota que agora era iminente, Ancelotti certamente colocou Neymar em campo, que não tem condição alguma de jogar uma partida de Copa do Mundo hoje, para não ser acusado de ter sido desclassificado com ele no banco.

Só piorava. Vini já não marcava desde o início, e agora Neymar se juntava a ele no trotinho mascarado ao redor de jogadores noruegueses. Endrick, que saiu do centro para a ala direita quando Neymar entrou, não fez mais nada, não conseguiu atacar por ali, não sabe defender por ali, se a ideia era colocar Neymar, então que ao menos tivesse entrado Luiz Henrique ao invés de Endrick, aquele sim um ponta-direita.

O jogo era angustiante e o que no início parecia uma boa estratégia, ainda que cuspindo em toda nossa tradição futebolística do jogo bonito, passou a ser um espetáculo masoquista de desespero diante da covardia de sequer lutar pela bola.

Ederson entrou aos 33’ no lugar de um desmilinguido Bruno Guimarães, o homem virou um farrapo depois do pênalti perdido. A substituição talvez tivesse a intenção de fechar um pouco mais o lado esquerdo do ataque nórdico, insuficiente, contudo. Alisson já havia feito algumas boas defesas, nossa ataque secara, e, como todos sabíamos desde o início, ao menos um gol de Haaland já estava contratado, seria quase impossível pará-lo por noventa minutos se tivéssemos a bola em nosso controle, cedendo a pelota por dois terços do tempo para os vikings era questão de saber quando o tento seria anotado.

Veio logo em seguida a entrada de Ederson, Schjelderup avança pela ponta, Endrick vai seco na bola e é driblado como o juvenil que ainda é, um cansado e aposentado Danilo, sem forças, torce para que Ederson chegue para fechar o cruzamento do nórdico, Ederson mantem-se na sobra imaginando que Danilo ainda fosse um jogador profissional de Futebol, Schjelderup entra livre na área, com tempo para olhar, pensar, e cruzar com perfeição no espaço entre nossos dois zagueiros, uma das bolas preferidas de Haaland, quando ele se desgarra da marcação de Magalhães, rompe o espaço para onde a bola viajava e desvia de cabeça, sem chances para Alisson.

Diferentemente do que aconteceu na fase anterior contra o Japão, o time não tinha nem forças nem estratégias para buscar o empate, faltando dez minutos para acabar. Como se fosse mentira, uma piada de péssimo gosto, o time inclusive manteve a estratégia de deixar a bola com a Noruega mesmo com o apuro de tempo.

Com o time completamente desorganizado e atacando mais por obrigação que por vontade, aos 40’ Danilo Santos encontrou Casemiro dentro da área, e o lance resume o que fomos em toda a partida: o camisa 5, próximo ao gol, bateu firme, mas nem chutou, nem cruzou, e a bola passou rápida na frente das traves sem sequer gerar perigo.

Aos 44’, a Noruega já nem se preocupava em atacar, apenas dois de vermelho no campo brasileiro, Schjelderup chega despretensioso na ponta, toca para Haaland na entrada da área, Magalhães fica na sobra, o lateral Danilo de novo não combate, o gigante nórdico, parado, chuta forte, a bola ainda passa entre as pernas de Danilo, no canto de Alisson, indefensável, 2x0, fim da Copa.

Como epílogo da tragédia, é marcado outro pênalti para o Brasil, nos acréscimos, quase com o tempo a esgotar e o ególatra Neymar preferiu gastar os segundo que faltavam numa discussão inútil com o goleiro Nyland, antes e depois de anotar o que espero seja seu último gol com a camisa que, se um dia mereceu, há muito já não merecia usar. Aliás, mostrando sua completa falta de empatia e sua mimada necessidade de ser sempre o centro das atenções, ainda no calor dos acontecimentos anunciou sua aposentadoria da Seleção, como se ele fosse o objeto especial e principal do que havia acontecido nesta tarde. Para aqueles que falavam que ele poderia mudar e ganhar um jogo de Copa em 20 minutos, jogou por 33, entrou com o jogo empatado, e para nenhuma surpresa de quem acompanha futebol, não fez absolutamente nada.

Em 2014, tivemos a pior derrota que uma equipe esportiva já sofreu, embora ao menos tenhamos chegado à semifinal. Sem nosso melhor jogador de então, Neymar, na única Copa em que jogou bem, lesionado no fim da partida das quartas de final contra a Colômbia, era claro que a Alemanha era favorita. Perder era possível e até esperado, não, evidentemente, daquele jeito. Sem Neymar e sem se principal defensor, o zagueiro Thiago Silva, era uma ótima desculpa para o técnico Felipão ser Felipão e reforçar o meio com mais um volante e tentear arrastar o jogo contra os alemães até onde desse.

Ao contrário, e fugindo de seu estilo, resolveu escalar de titular o risível Bernard, o “alegria nas pernas”, escancarou o time e não entendeu nada da história do futebol nacional e do seu protagonismo na busca do gol e do “jogo bonito”, e perdemos goleados daquele jeito que todos conhecem

Como resultado, é o mais vergonhoso de todos os tempos, e, por ser a maior seleção nacional da história no esporte mais popular do mundo perdendo uma semifinal de Mundial em casa por um dos maiores placares já vistos nesse nível, torna o fato virtualmente insuperável como a maior derrota esportiva de sempre.

Naquele dia, todavia, o que realmente me entristece profundamente é termos perdido como bobos, refutando décadas do jogo coletivo que nos consagrou universalmente e que nos tornou objeto de admiração e respeito em todo o globo, uma defesa forte, laterais velozes, um meio-campo técnico de passes e lançamentos perfeitos e os mais letais atacantes da história.

Naquele fatídico dia, o que me entristece é confundir nossa história vitoriosa com empilhar atacantes desprovidos de talento, como se isso fosse trazer ofensividade ao time, como se fosse trazer, ainda que efemeramente, algo do jogo bonito.

O que me entristece e envergonha naquele dia é que tentamos ganhar um dos maiores jogos de nossas vidas como bufões, e como bufões fomos miseravelmente tratados no primeiro tempo, e como bufões ainda tivemos que contar com a clemência alemã para que o massacre não fosse pior.

O resultado de hoje não é pior que aquele, pois resultado nenhum pode ser pior que aquele. Em 2018, perder para a “grande geração belga” no seu auge e tendo feito um jogo em que quase se empatou, ou perder nos pênaltis, como em 2022, para a melhor seleção croata, tendo sufocado-a durante 120 minutos para tomar o empate na última bola, são resultados ruins mas não são vergonha.

Mas hoje foi, de certo modo, pior. Diferente, porém pior até que o 7x1.

Se em 2014 no Mineirão a vergonha foi termos jogado como bufões idealistas querendo enfrentar a Alemanha como Quixote batalhou contra os moinhos de vento, a vergonha hoje, pior, foi por termos jogado da forma mais execrável, que nunca havíamos feito antes em Copas: como covardes.

* * *

Uma pena México e Inglaterra ter sido um grande jogo. Foi-me impossível desfrutá-lo.

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