26.06.26 – 16º dia de Copa
Copa do Mundo, 26.06.2026, Noruega 1 x 4 França; Senegal 5 x 0 Iraque; Uruguai 0 x 1 Espanha; Arábia Saudita 0 x 0 Cabo Verde; Nova Zelândia 1 x 5 Bélgica; Egito 1 x 1 Irã
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Sim, teve um recital do Dembelé no primeiro tempo contra a Noruega, um dos jogos mais esperados da primeira fase. Mas como os noruegueses abdicaram de jogar, já certos da derrota, e preferiram guardar seus titulares para enfrentar o forte time da Costa do Marfim, procuremos outro tema.
A comédia pouco me comove, então fico com o drama. Até quase o final da rodada, o tema era o herói que vira vilão e o epílogo do goleiro uruguaio Muslera. O lance final de Egito x Irã, contudo, dramático, trouxe-me uma provocação de um amigo sobre as regras do jogo.
Comecemos por Muslera. Em algum momento, foi um bom goleiro, fez parte da seleção que mais me encantou em Copas do Mundo que vi ao vivo, por quem torci fervorosamente, aquele Uruguai de 2010, do Diego Forlán jabulânico, da maior defesa da história de futebol por Luis Suárez no jogo contra Gana, o pênalti na trave de Asamoah Gyan, a classificação para as semifinais nos pênaltis. Foi o goleiro do Uruguai campeão da Copa América de 2011, depois de 16 anos sem título, sem título desde então. Arqueiro do novo período áureo do futebol charrua, foi titular até a semi de 2010, as oitavas de 2014, e as quartas de 2018, quando perderam para a futura campeã França. Já longe do auge, foi reserva do correto Rochet em 2022.
Tinha se aposentado da seleção, com excelentes serviços prestados. Contudo, o técnico Bielsa, a pessoa de melhores ideias a tomar as piores decisões na história do futebol, resolveu em março convocar Muslera, o que talvez até fizesse sentido num contexto de escassez de grandes jogadores que uma renitente resistência futebolística dos uruguaios necessita nos grandes palcos, certamente como reserva e provavelmente como terceiro goleiro.
A vida, mais que o futebol, é cruel. Para azar de Muslera, e para confirmar a crueldade, o goleiro icônico do time que retomou a tradição da Celeste Olímpica, foi atropelado pelos fatos, pelos jogos, pelo futebol, pela vida.
Antes de avançar, sejamos sinceros, embora a sinceridade aqui sirva mais para ressaltar a desgraça que assolou Muslera que para trazer-lhe algum conforto expiatório. O craque Valverde, forte candidato a melhor meio-campo do mundo quando veste o uniforme branco do Real Madrid, não jogou nada. A estrela Darwin Núñez, outrora um matador no brutal ataque do Liverpool, seduzido pelos petrodólares, é um esquecido no banco do Al-Hilal da Arábia Saudita. De Arrascaeta, incensado como um dos maiores jogadores da história do Flamengo (!), só sentiu o cheiro da grama. Canobbio, um bom jogador de Campeonato Brasileiro mas que claramente não tem nível para desfilar nos grandes palcos ter sido o principal jogador do Uruguai nesta Copa já indica o tamanho do buraco.
Ainda assim, é a Celeste. Nós precisamos de 220 milhões de pessoas apaixonadas por futebol para fazer uma seleção sem-vergonha quadrifinalista enquanto o Uruguai e sua população de menos de 4 milhões de habitantes assombra os grandes a cada quatro anos. Neste, chegou na última rodada com dois pontos contra uma claudicante Espanha, e espero ainda ter chance de escrever sobre o futebol da Espanha. Era para ter chegado com 6, pois não fossem as falhas de Muslera no gol sofrido contra a Arábia Saudita e nos gols sofridos contra Cabo Verde, teria vencido as duas partidas.
Uruguai, que perdeu um monte de gols no primeiro tempo, jogava melhor contra a Espanha que, acuada, nada fazia. Até que num dos pouquíssimos ataques espanhóis, sempre burocráticos, final da primeira etapa, a bola sobra para Baena, dentro da área, chutar mascado, um chute ruim, fraco, esquecível, desprezível até, não fosse a frangada de Muslera, eu vi o lance ao vivo, vi os replays, vi de novo depois, algumas, muitas vezes, e continuo sem acreditar como ele tomou esse gol.
A verdade é que, ainda que o Uruguai não tenha sido um primor, e não foi, jogou futebol para vencer os três jogos que disputou. Os quatro gols que tomou, todos falhas de Muslera. Um único gol que não tivesse engolido e Uruguai estaria classificado para a próxima fase.
Vivemos num mundo moralista, onde a culpa exerce um papel essencial. Mais do que o elemento consagrador da responsabilidade civil ou penal daquele que age culposamente, a culpa serve como o instrumento moral de julgamento social daqueles que não se adequam ao status quo ou que não atendem às expetativas, como o pobre do Muslera. Mais que isso, vivemos numa sociedade individualista, que prefere imolar um indivíduo a reconhecer o fracasso coletivo. O maior ensinamento do futebol, e dos esportes coletivos em geral, é que ninguém ganha sozinho e ninguém perde sozinho, e isso já deveria ser o bastante para indicar a irrelevância de prêmios de “melhor do mundo”.
Muslera, massacrado pela realidade, humilhado pelas redes sociais, envergonhado com seus companheiros de time, tomou a decisão drástica: quero sair. O time volta para o segundo tempo com o reserva Rochet, Muslera talvez tenha sido atropelado por um sentimento de humilhação por ser responsável pelo fracasso, misturado com o que lhe restava de honra e amor por seu país para reconhecer que seu colega é que tinha mais condições de jogar melhor, o vilão da queda uruguaia, herói de conquistas pretéritas, antes de ser um vilão, é um anti-herói, e sua humanidade nem seu valor não deveriam estar definidos pelas suas falhas, mas pelo orgulho que ajudou o povo uruguaio a recuperar. Forjado na posição daqueles que são a antítese do futebol, os únicos a ter por função exclusiva impedir gols, o goleiro Muslera desabafou: “Agora é hora de estar com as pessoas mais próximas a mim, de recuperar minhas forças. Essa é a natureza deste esporte, essa é a natureza desta posição; às vezes ela te dá muito, e às vezes ela te tira muito”.
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O futebol é uma vitrine da vida em muitos aspectos. No futebol, não há real imparcialidade, não há efetiva paridade de armas, não há justiça. A seleção do Irã nesta Copa é só exemplo atual, mas que em alguns dias será substituído por outro.
O Irã sofreu com a parcialidade dos EUA, uma das sedes do torneio e que move uma guerra contra os persas, ao ter o visto negado e a consequente entrada de vários dos membros de sua comissão técnica no país de Trump inviabilizada. Não teve à disposição o que outras seleções tiveram na preparação, como, por exemplo, ficar mais próximo às sedes de seus jogos, viajar com dois dias de antecedência para cada partida e poder dormir na cidade onde o jogo aconteceu para descansar antes de voltar, como fizeram todas as demais equipes, já que só tinham autorização para ficar poucas horas em solo estadunidense a cada vez, tendo que rapidamente voltar para o México, onde foram acolhidos.
Favoritos contra Nova Zelândia, tiverem que correr pelo empate por duas vezes e provavelmente teriam vencido em situações normais. Contra a cabeça-de-chave Bélgica, seguraram um belo empate em 0. Na última rodada, o gol prematuro do Egito parecia que sepultaria as chances persas de classificação, pois o Egito é um time visivelmente melhor e que não tinha os problemas logísticos e as pressões psicológicas que assolavam os iranianos. Antes dos 15’, contudo, o Irã empatou e a partida seguiu equilibrada até o final.
No lance final, 48’ do segundo tempo, no crepúsculo do jogo, os persas anotam o gol da vitória e da classificação. A festa é interrompida pela intervenção do VAR, mais um dos instrumentos que a humanidade criou para supostamente debelar injustiças, mas que é usado rotineiramente para reproduzi-las. Quando aparece a imagem, a punhalada final: o jogador iraniano tinha apenas a ponta da chuteira à frente do último defensor egípcio, um lance literalmente milimétrico.
Alguns dirão que, no rigor da regra, como o persa estava impedido, ainda que por poucos centímetros, o justo é que ela seja cumprida, esquecendo-se, evidentemente, como uma regra pode ser injusta. Outro poderiam argumentar que o VAR não faz parte da regra do jogo e a maneira como a regra do impedimento foi criada era para que fosse aferida pelos bandeirinhas, e que olho humano algum conseguiria anotar esse impedimento.
As regras de um jogo, diferentemente das leis de uma sociedade, servem apenas e exclusivamente para definir como aquele jogo é jogado. Da maneira como a regra do impedimento foi inventada e da maneira como ela podia ser sancionada, ela serve, evidentemente, para que o atacante não leve vantagem sobre a defesa, avançando ou permanecendo ininterruptamente avançado, sem qualquer defensor a marcá-lo, apenas esperando um chutão do seu time lá na banheira. Não há vantagem posicional em uma ponta de chuteira e o impedimento do iraniano, para que houvesse justiça, não poderia ser marcado. Dirão que os árbitros são apenas árbitros, não são juízes, e a eles não cabe interpretar a regra, apenas aplicá-la. E é assim que o rigor da regra vira injustiça, o que normalmente acontece com o rigor da lei aplicado aos de baixo, para quem, inclusive, se finge haver imparcialidade e paridade de armas em relação aos de cima.
Talvez Irã se classifique, caso haja um vencedor no jogo entre Áustria e Argélia e seria um episódio a mais na tentativa de redenção das injustiças. O mais provável é um jogo de comadres e o que Irã passou talvez logo seja esquecido e nem figure numa nota de rodapé sobre a maior Copa de todos os tempos, nós que temos uma imensa predileção em fingir esquecer o que nos incomoda.






O goleiro Muslera e seu último frango em Copas do Mundo
Tutorial de como fazer injustiças com o VAR
