15.06.26 – 5º dia de Copa

Copa do Mundo, 15.06.2026, Espanha 0 x 0 Cabo Verde; Bélgica 1 x 1 Egito; Arábia Saudita 1 x 1 Uruguai; Irã 2 x 2 Nova Zelândia

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Por que tantas pessoas tão diferentes, de tantos lugares tão diversos, das grandes metrópoles aos mais ermos recônditos rurais, por tantas décadas ininterruptas, amam tanto o jogo, vivenciam-no, idolatram-no e param na frente da tevê para assistir a um jogo que nem é do seu time ou da sua seleção, mas não só para ver a partida, para torcer, para torcer fervorosamente pela equipe de outro país, de um país que nem se sabia direito que existia, que nem se sabe onde fica?

Ninguém ainda conseguiu explicar. Mas certamente é por partidas como as que fez Cabo Verde, que nunca tinha jogado uma Copa e que ninguém esperava que jogasse este ano, já que sorteada para o grupo da tradicional seleção de Camarões nas eliminatórias africanas.

Não é só uma tendência natural de torcemos pelo mais fraco, um desejo meio sádico de ver o mais forte cair. Talvez isso sirva para explicar porque as pessoas se pegam torcendo para o Brentford contra o Manchester City, para o Rayo Vallecano contra o Real Madri, para o St. Pauli contra o Bayern de Munique, para qualquer time contra o São Paulo. Vai além.

E por mais que possamos reclamar, com razão, da monetização do jogo e da sua espetacularização como um bem de consumo, criticar a inundação de publicidade durante as transmissões, com a mudança da estrutura do tempo do jogo, que passou a ter quatro quartos para se adaptar aos anseios estadunidenses por mais possibilidades de propagandas, por mais que haja claros problemas com a Fifa, seu presidente, e o grande ditador Trump, simbolizadas pela impossibilidade de ingresso de um árbitro somali nos Estados Unidos, a Copa do Mundo continua a ser algo mágico porque nela ainda se jogam partidas que representam nossas vidas e nossos desejos.

Não torcíamos, nós os milhões de torcedores ao redor do mundo, para Cabo Verde apenas porque eram azarões, mas porque se via que jogavam o jogo de suas vidas, o orgulho de representar uma nação, queríamos nós também fazermos parte dessa história de superação, queríamos que nossos zagueiros jogassem como Pico e Diney, que nossos reservas entrassem com o vigor de João Paulo, que anulou a estrela em ascensão Lamine Yamal, que nossos goleiros jogassem com o coração de Vozinha.

Passamos, eu, meu filho e mais não sei quantas pessoas no mundo inteiro, os últimos dez minutos de jogo de pé na frente da tevê, afastando junto cada bola que a Espanha tentava fazer entrar na área caboverdiana, lamentamos a cabeçada de Diney que o goleiro espanhol Unai Simón defendeu quase no último lance do jogo e comemoramos como se fosse uma vitória nossa o empate sem gols. O choro de Vozinha, as comemorações dos africanos, suas declarações dedicando a atuação épica para todos os caboverdianos espalhados pelo mundo, eles que se reconhecem como uma nação de migrantes mas que naquele momento eram abraçados por milhões de outras pessoas de dezenas de outras nações.

É por momentos como esses que veneramos o jogo, um empate de 0x0 na primeira rodada da Copa e que será lembrado para sempre.

A lenda Vozinha

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