20.06.26 – 10º dia de Copa
Copa do Mundo, 10.06.2026, Países Baixos 5 x 1 Suécia; Alemanha 2 x 1 Costa do Marfim; Equador 0 x 0 Curaçao; Tunísia 0 x 4 Japão
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O medo faz parte da vida. Muito já foi escrito sobre ele, inclusive de como é importante para manter o indivíduo atento e alerta frente aos perigos que podem lhe rondar. A bravura e a coragem, sem medo, são apenas desatinos inconsequentes. O medo, portanto, ajuda a refrear nossos impulsos e a guiar nossos instintos.
Mas, se é assim imprescindível, qual é sua medida?
A Costa do Marfim, que havia jogado uma partida bastante equilibrada com o Equador na primeira rodada e venceu com um gol no último minuto, hoje jogou contra a Alemanha e foi dominante, merecendo vencer. Um dos atributos mais marcantes da equipe germânica é sua resiliência, e mesmo piores, conseguiram empatar a partida faltando uns vinte minutos para o fim. Costa do Marfim seguia melhor, criava chances, e a melhor delas veio aos 43’ do segundo tempo. Num contra-ataque rápido, a característica mais marcante do time africano, Pépé, que acabara se substituir o jovem talento Diomandé, driblou um adversário e disparou pela lateral direita, desde sua defesa, os alemães arfando atrás dele, tentando voltar a tempo de defender, Pépé chegou na entrada da área, eram três marfinenses contra dois tedescos, o atacante, no momento em que a defesa escolheu quem ia marcar, tocou para o lado esquerdo da área e o camisa 10 Adingra, que estava livre para chutar para o gol, foi tomado por um medo paralisante, apenas por um átimo, o bastante, contudo, para perder o tempo do chute, a bola era perfeita para chutar com qualquer das pernas, perder até o tempo do domínio, sequer conseguiu matar a bola, os defensores que voltavam desgovernados conseguiram tirar a bola da área, Adingra, ciente de que o cavalo já passara selado, não teve forças para ir buscá-la novamente. Se Adingra tivesse chutado, como era esperado, a bola poderia ter batido na trave, poderia ter ido para fora, por cima ou pelo lado, Neuer poderia milagrosamente defender, o gol poderia não acontecer por inúmeras circunstâncias, mas não porque ele fora paralisado pelo medo, o medo de perder o gol, o medo de não acertar, o medo de ganhar um jogo lendário e gravar o nome na eternidade. Nos acréscimos, a Alemanha virou o placar, ganhou a partida, e nos anais o 2x1 para os tetracampeões do mundo não vai chamar a atenção de ninguém.
Na outra partida do mesmo grupo, Equador e Curaçao, também o medo teve um papel importante. Os equatorianos, depois de jogarem uma boa partida contra os marfinenses, acertarem três vezes a trave e perderem no final, sentiam, todos, a pressão da obrigação de vencer uma das piores seleções da Copa para manterem-se classificáveis. Antes dos 2’, Caicedo faz um lançamento espetacular para Enner Valencia, o atacante na cara do gol, mas o chute, ainda que não tenha sido fraco, foi mal colocado e permitiu que o goleiro Room, que seria o herói da partida, fizesse a primeira de suas quinze defesas. Valencia, o artilheiro histórico do Equador, perder gols incríveis têm sido uma constante em sua carreira desde sua passagem pelo Internacional, mas esse estava em um outro nível.
Ao longo do jogo, Equador criava novas oportunidades de anotar o primeiro tento e eram todas miseravelmente perdidas, um erro no toque final, uma finalização em cima do goleiro para quem bastava apenas rebater a bola, o chute perto da trave que vai para fora. O tempo passava e a maquiagem com a qual os andinos escondiam seus fantasmas ia derretendo e era visível em seus rostos a paúra que se instalava, de não conseguir vencer a partida que bilhões de pessoas que a assistiam sabiam que venceriam.
Novos erros atormentavam os equatorianos, que passaram a ceder possibilidades inusitadas e inesperadas de gol para os caribenhos, o goleiro Galíndez precisou de uma defesa incrível para manter o placar inalterado. No final, outra bola equatoriana na trave, meio que sem querer, já o medo completo de quem não consegue fazer mais do que a obrigação, um mísero gol, os rostos e os corações hirtos do medo do fracasso.
Ao fim do jogo, alguns ainda conseguiram disfarçar o temor que sentiram, talvez porque tenham entendido que o que temiam já tinha se realizado. Gonzalo Plata, que concorre à pior finalização desta Copa por um chute muito longe do gol, por cima, um claro sinal de desespero, não suportou manter as aparências e chorou ao fim do jogo, nunca tinha visto isso, o choro de quem empatou uma partida embora ainda respire no certame, óbvio que há choros depois de jogos empatados que levam à uma eliminação ou à perda de um título, mas não é esse o caso, Equador se classifica caso vença sua última partida contra a Alemanha.
Será que já é medo de enfrentar a Alemanha? Se a Copa do Mundo é o sonho de todo atleta, pode, claro, também ser um pesadelo, a forma mais brutal de sonhar. O medo de ganhar, o medo de perder.








Adingra e o medo de errar.
