23.06.26 – 13º dia de Copa
Copa do Mundo, 23.02.2026, Portugal 5 x 0 Uzbequistão; Inglaterra 0 x 0 Gana; Panamá 0 x 1 Croácia; Colômbia 1 x 0 República Democrática do Congo
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Não sei bem por que, mas nunca gostei de Cristiano Ronaldo, talvez eu tenha sido influenciado pela inevitável comparação com Messi e essa coisa maniqueísta que se só pode gostar de um e odiar o outro. Na verdade, para mim são incomparáveis, um, talento puro, outro, o auge do atleta do futebol, então isso nem deveria pesar na minha avaliação, mas gosto e torcida passam longe de qualquer racionalidade.
Diferentemente de mim, milhões ao redor do mundo idolatram Cristiano, o que faz sentido para alguém que jogou tantos anos em altíssimo nível, um dos grandes de sua geração, perto de 1000 gols na carreira, mais de 200 jogos por sua seleção e, agora, único a anotar em seis Copas do Mundo.
De fato, é quem mais chegou perto de ser o atleta perfeito no futebol. Sem um grande talento, moldou seu corpo e sua vida para ser o mais rápido, o mais forte, o que pulava mais alto, melhorou sua finalização, incrementou novas chutes, treinou faltas, pênaltis e cabeceios, conseguiu se tornar um grande driblador, sempre insaciavelmente à procura do gol. Não tem lances mágicos em seu repertório, seu brilho está no quão fatal e decisivo treinou para ser, e por muitos anos ninguém fez mais gols e gols mais importantes que ele.
O estádio de Houston estava quase inteiramente vermelho para o jogo de Portugal contra Uzbequistão, fora o pequeno setor da torcida uzbeque. Não que os portugueses tenham invadido os EUA, a maioria da torcida de camisas vermelhas com o sete nas costas era de cidadãos dos mais diferentes lugares do mundo, e que torciam para Portugal por uma mera coincidência, já que ali estavam para torcer por Cristiano.
Depois do melancólico empate na primeira rodada contra RD Congo, sem gols de Cristiano, enquanto Messi, Mbappé, Haaland, Kane e Vini despontavam na artilharia, havia grandes expectativas para que o luso desencantasse, uma cobrança que eu imaginava um tanto irreal para um senhor de 41 anos depois da péssima Copa que ele fez há quatro anos no Catar, confirmada pela partida horrível que jogou na rodada inaugural.
Quem estava na arquibancada, evidentemente, não pensava como eu. Cada vez que a bola chegava perto de Cristiano, a excitação do estádio aumentava, audível pelos gritos que a acompanhavam. Aos 5’, o excelente Vitinha, posicionado meio como líbero, recebeu a troca de passes entre os defensores portugueses e de seu campo de defesa deu um lançamento exuberante de uns 50 metros na ponta direita para Pedro Neto, que driblou duas vezes o lateral-direito Nasruallev e tocou para trás para o lateral João Cancelo, que ultrapassou os dois defensores que estavam na jogada e cruzou firme para a área, a bola não veio rasteira, pingou um pouco antes da primeira trave, Cristiano desvencilhou-se de sua marcação, encontrou a pelota no ponto exato para um chute forte, perfeito, indefensável, entre o goleiro e a trave. O estádio explodiu, mas Cristiano não foi para a torcida, correu para o banco e passou os 40 segundos seguintes cumprimentando cada um de seus companheiros, reservas e titulares, para, enfim, fazer sua tradicional comemoração, os dois punhos cerrados acima da cabeça, um leve salto enquanto os braços giram rapidamente para baixo, ao lado do tronco, as mãos espalmadas e o grito, acompanhado de mais de 50 mil pessoas, “siuuu”. Só quem não gosta de futebol ou não tem coração não se emocionou, e aqui uma lágrima ficou penduradinha no canto do olho.
A partir daí, Portugal atropelou, 5x0, Cristiano fez outro, Rafael Leão fez um daqueles seus lendários gols de primeira, um passeio. Na entrevista pós-jogo, um repórter iniciou a pergunta falando de Messi e logo foi dispensado pelo português. O brasileiro Julio Gomes, então perguntou, se, enfim, Portugal e Cristiano haviam chegado na Copa: “Eu chego sempre, mais cedo ou mais tarde, eu estou lá”.
Sempre gostei mais de Messi. Mas como eu não jogo amistoso, se no auge de Messi e Cristiano Ronaldo eu pudesse escolher um deles para a minha pelada, escolheria Cristiano.
Nós que um dia chutamos uma bola, gostaríamos de ter tido a habilidade daqueles fora-de-série como Messi, como Pelé, como Garrincha, como Maradona, como Zico, como Ronaldo e Ronaldinho, como Neymar. Mas por mais que treinássemos, chutássemos a bola, perdêssemos o tampão do dedão no asfalto da rua, fizéssemos gols memoráveis em quadras esburacadas, a dúvida eterna se a bola que passou por cima do chinelo foi ou não gol, jamais chegaríamos no Olimpo. Cristiano era como nós, mas treinou mais que todos, cuidou de seu corpo mais que todos, quis mais que todos ser um grande jogador, ser o maior jogador. Eu adoro jogadores assim no meu time, jogadores da transpiração, sem esses caras não se ganha títulos. Cristiano, porém, leva isso para outro nível.
Deve ser por isso que não gosto de Cristiano, o mesmo motivo pelo qual não gosto de Neymar. Olhar Neymar e ver o desperdício que foi sua carreira com o talento estupendo que tinha me faz pensar o que eu teria feito no lugar dele, se tivesse tido esse talento. Olhar Cristiano Ronaldo e ver que se eu tivesse um fiapo da tenacidade e da força de vontade dele, talvez tivesse sido um jogador de futebol.




O homem.
A lenda.
