27.06.26 – 17º dia de Copa

Copa do Mundo, 27.06.2026, Panamá 0 x 2 Inglaterra; Croácia 2 x 1 Gana; Colômbia 0 x 0 Portugal; República Democrática do Congo 3 x 1 Uzbequistão; Jordânia 1 x 3 Argentina; Argélia 3 x 3 Áustria

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Colômbia e Portugal foi vendido desde o sorteio como um dos melhores jogos da primeira fase e de fato foi, com os sul-americanos merecendo a vitória, que não veio por outro VAR de ponta de chuteira depois de um belo gol de cabeça de Davinson Sánchez.

O insano final de Argélia e Áustria, contudo, merece o protagonismo do dia. Quando Argélia marcou o 3x2, aos 48’ do segundo tempo, já sabia que escreveria sobre vingança. Intrigou-me, contudo, a feição de Mahrez quando voltava para seu campo de defesa, depois de comemorar o gol que anotara, um olhar que parecia preocupado, que apareceu num átimo, mas que atribuí a uma infeliz coincidência do que filmava o cinegrafista e do que decidia transmitir o diretor, ainda mais porque a comemoração no banco de reservas argelino era aparentemente genuína, e o desalento perplexo dos torcedores austríacos, também sincero.

O gol eliminava a Áustria e classificava, além da própria Argélia, o Irã. O grandalhão austríaco Kalajdzic entrou no jogo, uma tentativa desesperada de um último chuveirinho na área. A Argélia teve várias chances de afastar a bola, que sempre teimava em cair em pés alpinos, até que a bola é cruzada na área, passa do segundo pau, é novamente centrada, dessa vez de cabeça, e cerca de dois minutos e quinze segundos depois do gol argelino, Kalajdzic anotou o tento final, 3x3. Classificados ambos, Irã fora.

Nesse período de pouco mais de dois minutos, comecei a imaginar como iria abordar a vingança que, enfim, a Argélia parecia, após 44 anos, consumar.

Em 1982, na última rodada da primeira fase, Alemanha Ocidental e Áustria disputaram o último jogo do grupo B, que também tinha Argélia e Chile, que haviam jogado no dia anterior. Sabendo antecipadamente do resultado da Argélia, os vizinhos europeus fizeram um jogo de comadres, a Alemanha abriu o placar no início da partida e ninguém mais atacou. A vitória alemã por 1x0 classificava ambos, empate ou vitória austríaca eliminavam a Alemanha e salvavam a Argélia, uma vitória germânica mais larga desclassificava a Áustria e classificava os argelinos. No que depois ficou conhecido como “Jogo da Farsa” ou “Vergonha de Gijón”, o papelão fui sumariamente vaiado pelas arquibancadas, que exigiam empenho das equipes e gritavam “vergonha” e “Argélia”. Foi esta a partida que fez a Fifa modificar o regulamento das Copas posteriores e adotar o horário simultâneo para os jogos dos times do mesmo grupo na última rodada da primeira fase.

Viver enviesado por ideais muitas vezes nos turva a realidade. Imaginava que a Argélia jogaria para vencer, justamente já por terem sido a vítima da farsa de 1982, e por outra equipe, no caso o Irã, depender de sua vitória para classificar-se.

Assistindo ao jogo, quis veementemente acreditar que não era um teatro, as equipes se atacavam e se defendiam, mal, é verdade, mas na medida do futebol ruim que já haviam apresentado nos dois jogos anteriores contra a excelente Argentina e a péssima Jordânia.

Quando a Áustria abriu o placar, lá pela metade do primeiro tempo, ainda enviesado pelo que acreditava certo, imaginei que se preveniam da eventual vingança dos magrebinos. No final do primeiro tempo, Mahrez dividiu com um zagueiro austríaco depois que a bola bateu na bandeira de escanteio e voltou para o campo, o argelino sairia livre pela ponta, mas o defensor, caído, agarrou-o pelas pernas, a bola sobrou para Belghali, que invadiu a área paralelo à linha de fundo, limpou os zagueiros e soltou uma bomba indefensável, golaço. Nada lembrava um jogo farsante.

No segundo tempo, a crônica seguiu a mesma, Sabitzer recolocou os austríacos na liderança com um belo gol num chute forte da entrada da área aos 10’, e cinco minutos depois foi a vez de Mahrez aparecer com frieza na área e concluir com perfeição, lampejo da época que jogava na Inglaterra, de títulos por Leicester e Manchester City.

E veio a farsa. Aproximando-se do fim do jogo, a Argélia passou nem sei quantos minutos tocando de lado sem tentar infiltrar a defesa austríaca, a Áustria sem apertar para tentar retomar a bola. Confesso que ainda duvidei que fosse o embuste, talvez os dois times tenham percebido que o adversário estava genuinamente disposto a vencê-lo para eliminá-lo, mas que, àquela altura, não compensava o risco de tentar tirar o outro e acabar cavando a própria fossa.

E nada me ludibriou mais que o terceiro gol argelino, o segundo de Mahrez, aquele dos acréscimos, depois, de uma linda enfiada recebida dentro da área e que finalizou perfeitamente, a melhor apresentação dele nesta Copa. Será que enfim a Argélia se vingaria?

Kalajdzic empatou, ainda assim seria uma boa história, mas a pulga que tenho atrás da orelha resolveu fazer coçar.

Quando vi a entrevista de Mahrez meio que se desculpando por ter feito o tento nos acréscimos, que com um passe daqueles ele tinha que chutar para o gol, aquela fumaça toda do queimado subindo, ainda achei que talvez desse para salvar a receita, quem sabe passar uma faquinha no que ficou no fundo da panela, talvez não misturar o que já está lá grudado com o resto do que foi cozido em cima. Aí apareceu um vídeo de Arnautovic, o artilheiro histórico da Áustria, que abrira o placar e tinha sido substituído, gesticulando meio indignado do seu banco de reservas para os argelinos, enquanto alguns deles respondiam com aquele sinal manual universalmente reconhecido como “calma, calma”.

Fui rever o gol final. E o que vi foi totalmente diferente. Nenhum dos argelinos tentou realmente tirar a bola numa situação em que só se precisa gastar um ou dois minutos para garantir uma vitória histórica, nenhum deles parece efetivamente abafar quaisquer dos austríacos, a bola vai chegando perto da área, ninguém tira, ninguém divide, a bola ainda assim quase sai pela linha de fundo, ninguém aperta, ninguém faz nada, mas sempre com uma pantomima parecendo querer se defender.

A jogo poderia ter sido épico com uma vitória argelina, ou poderia ter dado errado pela resiliência austríaca, mas só foi triste. Mais forte que a vingança dos injustiçados, mais forte que o espírito do atleta de sempre dar o máximo de si, foi o espírito do conchavo: não importa quantos ou quem venham a ser prejudicados, não importa que nós já tenhamos sido os oprimidos, vamos logo garantir o nosso.

Irã já tem uma nota de repúdio, digo, um Jogo da Vergonha para chamar de seu.

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