31.05.26 – Remo 1 x 0 São Paulo
Brasileirão, 31.05.2026, Mangueirão, Belém
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Ano passado, após o massacre sofrido no Maracanã contra o Fluminense, 6x0, achava que este seria um ano para não ser rebaixado.
Um Campeonato Paulista claudicante, um começo fabuloso de Brasileiro com Crespo, demitido por ganhar demais, e a vinda do se-não-tem-ninguém-vem-você-mesmo Roger Machado trouxeram a bruma de uma inércia absoluta, o mergulho nas profundezas do buraco negro do meio da tabela, aquele lugar de terceiro escalão que temos ocupado, salvo raríssimas exceções, nos últimos quase vinte anos, o meio da tabela, que vem com o desrespeito das equipes adversárias, que já não temem nossa outrora gloriosa camisa, e a indiferença dos torcedores rivais, que nem dispendem energia para troçar de uma derrota contra o rebaixável Remo. O time não é bom para pelejar pelo título ou pelo topo, e já não intimida mais ninguém; não é ruim o bastante para ser rebaixado e não vale o esforço de ser zoado pelo marasmo que se encontra.
Uma pequena jangada à deriva no meio do Oceano Pacífico, esperando um dia alcançar terra.
Já seria deprimente essa vida de figuração. A temporada do futebol brasileiro, contudo, é uma máquina de moer times, jogadores, técnicos e árbitros, com dois jogos toda semana, nove jogos num mês, viagens literalmente continentais, sem tempo para treinar ou sequer descansar, com as arquibancadas reais clamando por raça e as virtuais vituperando por resultados e demissões. Passar por tudo isso e terminar em 13º traz aquele gosto amargo da vida líquida, como se tivéssemos desperdiçado mais um precioso ano de nossas vidas por nada, o tempo a escorrer pelos nossos dedos.
Mas, como profeticamente alertara o líder Crespo, o primeiro objetivo seria chegar aos 45 pontos e livrar-se o quanto antes do rebaixamento. A derrota para o Remo, com o cruel requinte que já virou direito adquirido, os gols ao final das partidas, e que transformaram o que era certo, a fuga da degola, em duvidoso, agora passa a cristalizar o outrora hipotético, o rebaixamento, em iminente.
Jogando como tem jogado nas últimas nem-sei-quantas partidas, esse time não faz os 20 pontos que precisa nos 20 jogos que resta. É um time que perdeu a confiança completamente, que não tem jogadas ofensivas e que hoje depende de brilharecos de Artur, uma equipe que não consegue se defender, mesmo porque sequer consegue jogar com dois zagueiros profissionais, que não mete medo em ninguém e teme a si mesmo. Quando joga mal, perde; quando joga mais ou menos, perde; quando joga bem, perde; quando domina o adversário, toma um gol no fim e empata.
O Remo é um dos piores times do campeonato, talvez só menos pior que a Chapecoense. Não havia nenhum jogador em campo em cada uma das posições que fosse melhor que seus equivalentes são-paulinos. E mesmo com toda sua limitação técnica, o Remo ao menos é um time, tem jogadas, tem jogadores dispostos a correr por seus companheiros, dispostos a pontuar, que acreditam, como sua torcida, que é possível aguentar mais um ano na primeira divisão. O campeonato do Remo é a 16ª posição, e embora mesmo neste certame particular eles não estejam bem, ainda assim, hoje, são uma equipe mais competitiva que o São Paulo.
A partida foi um fiasco. Foi mais uma daquelas engana-trouxa em que parece que o Tricolor domina, que fará um gol quando quiser, que claramente se vê sua superioridade técnica sobre o adversário, que aparenta apenas resistir bravamente. Qual o que, quando se espreme mesmo, não houve nada, uma mísera jogada de ataque que criasse uma única oportunidade de gol que fosse, nada, um vazio completo, mais fácil chover em Atacama, mais fácil não chover em Belém, apenas uma cobrança de falta aleatória de Artur que o goleiro Ivan precisou salvar em cima da linha. Ao final, o que sobra do jogo foi um chute na trave de Patrick quase inaugurando o placar para os paraenses no primeiro tempo e a bola perdida pela defesa são-paulina no fim do jogo, culminando no gol de Marcelinho num chute cruzado evitável e defensável.
Em inglês, descobri há pouco tempo que há uma expressão para esses times que sempre tomam gol no final: spursy. Inicialmente utilizada apenas para o Tottenham Hotspurs, conhecido na Inglaterra como Spurs, após anos e anos de viradas sofridas nos acréscimos, gols tomados no final, classificações perdidas quando eram favoritos e haviam construído vantagens que pareciam sólidas, hoje já se usa para outras situações. Não é aquele tipo de amarelada do Botafogo de 2023, quando um time simplesmente derrete num campeonato específico. É a consistente e inabalável capacidade de perder pontos em partidas ganhas, habilidade esforçadamente construída durante anos a fio que faz doer a úlcera do torcedor toda vez que o assistente ergue a placa dos acréscimos, sempre tão longos.
Cada país tem seus critérios para estabelecer quem são os times grandes. O Big Six inglês de hoje tem Chelsea e Manchester City muito mais em razão do dinheiro e dos títulos recentes que de um passado glorioso ou uma legião de fãs fora de suas cidades. Mesmo sem muitos títulos expressivos nas últimas décadas, o Tottenham continua a ser considerado um dos grandes, certamente pelo tamanho de sua torcida, e por isso, talvez, o espanto causado por essas viradas bizarras, esses gols nos acréscimos quando tudo parecia resolvido.
O São Paulo segue pelo mesmo caminho. Grande por causa do seu passado, de sua imensa torcida, mas muito pouco relevante nos últimos anos, hoje é o spursy brasileiro. O Tottenham, entre a típica autocomiseração jocosa e irônica britânica e a sucessiva perda de pontos e campeonatos, precisou no mês passado, na última rodada, de uma vitória dramática sobre o Everton para não ser rebaixado. Como não temos a capacidade de galhofarmos de nossas próprias desgraças, nós que um dia nos alcunhamos de soberanos, com esse comportamento spursy corremos sérios riscos de seguir os passos do Tottenham e brigar contra o rebaixamento até a última rodada, nessa nossa espiral de autodestruição que é nosso processo de vascainização.Ano passado, após o massacre sofrido no Maracanã contra o Fluminense, 6x0, achava que este seria um ano para não ser rebaixado.
Um Campeonato Paulista claudicante, um começo fabuloso de Brasileiro com Crespo, demitido por ganhar demais, e a vinda do se-não-tem-ninguém-vem-você-mesmo Roger Machado trouxeram a bruma de uma inércia absoluta, o mergulho nas profundezas do buraco negro do meio da tabela, aquele lugar de terceiro escalão que temos ocupado, salvo raríssimas exceções, nos últimos quase vinte anos, o meio da tabela, que vem com o desrespeito das equipes adversárias, que já não temem nossa outrora gloriosa camisa, e a indiferença dos torcedores rivais, que nem dispendem energia para troçar de uma derrota contra o rebaixável Remo. O time não é bom para pelejar pelo título ou pelo topo, e já não intimida mais ninguém; não é ruim o bastante para ser rebaixado e não vale o esforço de ser zoado pelo marasmo que se encontra.
Uma pequena jangada à deriva no meio do Oceano Pacífico, esperando um dia alcançar terra.
Já seria deprimente essa vida de figuração. A temporada do futebol brasileiro, contudo, é uma máquina de moer times, jogadores, técnicos e árbitros, com dois jogos toda semana, nove jogos num mês, viagens literalmente continentais, sem tempo para treinar ou sequer descansar, com as arquibancadas reais clamando por raça e as virtuais vituperando por resultados e demissões. Passar por tudo isso e terminar em 13º traz aquele gosto amargo da vida líquida, como se tivéssemos desperdiçado mais um precioso ano de nossas vidas por nada, o tempo a escorrer pelos nossos dedos.
Mas, como profeticamente alertara o líder Crespo, o primeiro objetivo seria chegar aos 45 pontos e livrar-se o quanto antes do rebaixamento. A derrota para o Remo, com o cruel requinte que já virou direito adquirido, os gols ao final das partidas, e que transformaram o que era certo, a fuga da degola, em duvidoso, agora passa a cristalizar o outrora hipotético, o rebaixamento, em iminente.
Jogando como tem jogado nas últimas nem-sei-quantas partidas, esse time não faz os 20 pontos que precisa nos 20 jogos que resta. É um time que perdeu a confiança completamente, que não tem jogadas ofensivas e que hoje depende de brilharecos de Artur, uma equipe que não consegue se defender, mesmo porque sequer consegue jogar com dois zagueiros profissionais, que não mete medo em ninguém e teme a si mesmo. Quando joga mal, perde; quando joga mais ou menos, perde; quando joga bem, perde; quando domina o adversário, toma um gol no fim e empata.
O Remo é um dos piores times do campeonato, talvez só menos pior que a Chapecoense. Não havia nenhum jogador em campo em cada uma das posições que fosse melhor que seus equivalentes são-paulinos. E mesmo com toda sua limitação técnica, o Remo ao menos é um time, tem jogadas, tem jogadores dispostos a correr por seus companheiros, dispostos a pontuar, que acreditam, como sua torcida, que é possível aguentar mais um ano na primeira divisão. O campeonato do Remo é a 16ª posição, e embora mesmo neste certame particular eles não estejam bem, ainda assim, hoje, são uma equipe mais competitiva que o São Paulo.
A partida foi um fiasco. Foi mais uma daquelas engana-trouxa em que parece que o Tricolor domina, que fará um gol quando quiser, que claramente se vê sua superioridade técnica sobre o adversário, que aparenta apenas resistir bravamente. Qual o que, quando se espreme mesmo, não houve nada, uma mísera jogada de ataque que criasse uma única oportunidade de gol que fosse, nada, um vazio completo, mais fácil chover em Atacama, mais fácil não chover em Belém, apenas uma cobrança de falta aleatória de Artur que o goleiro Ivan precisou salvar em cima da linha. Ao final, o que sobra do jogo foi um chute na trave de Patrick quase inaugurando o placar para os paraenses no primeiro tempo e a bola perdida pela defesa são-paulina no fim do jogo, culminando no gol de Marcelinho num chute cruzado evitável e defensável.
Em inglês, descobri há pouco tempo que há uma expressão para esses times que sempre tomam gol no final: spursy. Inicialmente utilizada apenas para o Tottenham Hotspurs, conhecido na Inglaterra como Spurs, após anos e anos de viradas sofridas nos acréscimos, gols tomados no final, classificações perdidas quando eram favoritos e haviam construído vantagens que pareciam sólidas, hoje já se usa para outras situações. Não é aquele tipo de amarelada do Botafogo de 2023, quando um time simplesmente derrete num campeonato específico. É a consistente e inabalável capacidade de perder pontos em partidas ganhas, habilidade esforçadamente construída durante anos a fio que faz doer a úlcera do torcedor toda vez que o assistente ergue a placa dos acréscimos, sempre tão longos.
Cada país tem seus critérios para estabelecer quem são os times grandes. O Big Six inglês de hoje tem Chelsea e Manchester City muito mais em razão do dinheiro e dos títulos recentes que de um passado glorioso ou uma legião de fãs fora de suas cidades. Mesmo sem muitos títulos expressivos nas últimas décadas, o Tottenham continua a ser considerado um dos grandes, certamente pelo tamanho de sua torcida, e por isso, talvez, o espanto causado por essas viradas bizarras, esses gols nos acréscimos quando tudo parecia resolvido.
O São Paulo segue pelo mesmo caminho. Grande por causa do seu passado, de sua imensa torcida, mas muito pouco relevante nos últimos anos, hoje é o spursy brasileiro. O Tottenham, entre a típica autocomiseração jocosa e irônica britânica e a sucessiva perda de pontos e campeonatos, precisou no mês passado, na última rodada, de uma vitória dramática sobre o Everton para não ser rebaixado. Como não temos a capacidade de galhofarmos de nossas próprias desgraças, nós que um dia nos alcunhamos de soberanos, com esse comportamento spursy corremos sérios riscos de seguir os passos do Tottenham e brigar contra o rebaixamento até a última rodada, nessa nossa espiral de autodestruição que é nosso processo de vascainização.
